- Aidir Parizzi e o Vieux-Port, o Porto Velho, em Marselha, na região de Provence-Alpes-Côte d’Azur; no alto, La Bonne Mère
- O eterno movimento da migração: em que momento o outro deixa de ser o outro?
No final de 1994, eu morava no norte da Alemanha. Depois de uma longa jornada de trabalho, me distraí na direção e bati meu carro contra a traseira de um ônibus. Poucos segundos depois, o ônibus, que não havia sofrido avarias, seguiu viagem. Fiquei sozinho no meio da rodovia com o veículo inoperante, aguardando alguma espécie de resgate. Logo parou um carro. O motorista desceu, perguntou se eu estava bem e me ajudou a empurrar o automóvel para o acostamento. Eu agradeci, comovido, e perguntei como poderia retribuir. Em um alemão marcado por um forte sotaque turco, ele me disse: “Só quero que nunca esqueça que, na hora em que precisaste de ajuda, quem veio em teu socorro foi um imigrante muçulmano.”
Lembrei desse acontecimento ao visitar a bela Marselha, a segunda maior cidade francesa. A capital da região Provence-Alpes-Côte d’Azur abriga uma das maiores comunidades muçulmanas do país, estimada em cerca de um quarto da população de 900 mil habitantes. A maioria é originária do antigo império colonial francês, especialmente da Argélia, de Marrocos e da Tunísia.
Fundada como Massalia por marinheiros gregos em 600 a.C., a cidade mais antiga da França, assim como a Provença, foi incorporada à coroa francesa no final do século 15. A localização geográfica, o histórico de comércio com o norte da África e o passado colonial francês fizeram da região um importante destino para imigrantes do Magreb, muitos deles atraídos pela demanda por mão de obra durante o desenvolvimento industrial da França, especialmente no pós-guerra.
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A melhor vista está no ponto mais alto da cidade, onde um antigo forte deu lugar à Basílica de Notre-Dame de la Garde. Além do panorama e do belíssimo templo, conhecido pelos locais como La Bonne Mère (A Boa Mãe), eu queria avistar uma ilha e seu icônico forte na Baía de Marselha.
Construído como uma fortaleza no século 16, o Château d’If serviu depois como prisão até o final do século 19. O que o tornou famoso, porém, foi ter sido cenário de um clássico da literatura. O escritor francês Alexandre Dumas (1802-1870) imaginou a ilha como local da injusta prisão de Edmond Dantès, personagem que, ao longo do romance, assume a identidade do vingativo Conde de Monte Cristo. Por sinal, o criador deste e de outros clássicos, como Os três mosqueteiros, também carregava consigo a história colonial francesa: seu pai nasceu em Saint-Domingue, atual Haiti, filho de um aristocrata francês e de uma mulher negra escravizada.
Marselha é um vibrante caldeirão cultural. Além dos norte-africanos, a cidade conta com uma extensa comunidade de origem turca e uma das maiores comunidades judaicas da Europa. O distrito histórico junto ao Porto Velho foi parcialmente destruído pelos nazistas em 1943, numa operação realizada com ampla colaboração do regime de Vichy, mas segue sendo uma das maiores atrações da cidade.
O nome de Marselha foi eternizado no hino nacional do país. Em 1792, voluntários da região marcharam até Paris para juntar-se às tropas francesas que lutavam contra os austríacos. A canção de guerra dos marselheses tornou-se o hino da França, conhecido como “La Marseillaise”. Acostumamo-nos a ouvi-lo entoado pela seleção francesa de futebol, ela própria um retrato da diversidade étnica e da história migratória do país.
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Em um de meus recentes artigos, recebi algumas mensagens alarmistas sobre uma suposta invasão muçulmana da Europa. Segundo os autores, haveria um plano evidente de submeter o continente ao islamismo e à lei islâmica (sharia), e algumas cidades como Londres e Paris já estariam dominadas. É difícil enxergar uma invasão islâmica em um continente onde apenas cerca de 6% da população é muçulmana. Além disso, reduzir milhões de indivíduos à religião que professam e presumir suas intenções diz muito pouco sobre eles, e muito sobre os nossos próprios preconceitos.
Seguindo seu próprio pedido, o “bom samaritano” turco que me auxiliou há mais de 30 anos deixou em mim uma marca indelével de gratidão e solidariedade. Lembrei-me dele mais uma vez ao caminhar por uma cidade profundamente marcada pela imigração, e que foi fundada por gregos de Foceia, na atual Turquia.
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