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NUREMBERG, ALEMANHA - final

Pelo mundo: o eterno alerta

Local de congressos anuais nazistas permanece como memorial nos dias atuais

“A única pista do que o homem é capaz de fazer é o que o homem já fez.”
R. G. Collingwood

A importância do Tribunal de Nuremberg não está somente no fato de ter estabelecido precedentes jurídicos que culminariam, décadas depois, na criação do Tribunal Penal Internacional, com sede nos Países Baixos. O principal alerta deixado pelo nazismo é que seus líderes eram pessoas comuns que fizeram escolhas capazes de criar um cenário de morte e destruição sem precedentes.

O psicólogo Douglas Kelley, que avaliou os 22 réus do primeiro julgamento, enfatizou em seu livro sobre Nuremberg que as condições que produziram os homens processados em Nuremberg e a consequente catástrofe humana poderiam voltar a acontecer em qualquer lugar, inclusive nos Estados Unidos.

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Um sinal de que o fascismo continua sendo uma ameaça é o fato de que a morte ou a prisão dos líderes não elimina o problema, e pode até amplificá-lo ao transformá-los em mártires. Os juízes de Nuremberg já sabiam disso. Após a morte dos doze condenados à forca no julgamento dos principais líderes (Hermann Göring ainda conseguiu se suicidar com uma cápsula de cianeto de potássio duas horas antes da execução, não sem antes deixar uma carta repleta de soberba), os corpos foram cremados e espalhados em um afluente do Rio Isar. O objetivo era não deixar que tumbas fossem usadas como local de peregrinação nazista.

Em outro exemplo, Rudolf Hess ajudou Hitler a escrever Mein Kampf e era o segundo na hierarquia nazista até fazer um excêntrico voo solo para a Escócia para tentar negociar um acordo com o Reino Unido. Acabou preso pelos britânicos e só retornou à Alemanha para ser julgado em Nuremberg. Escapou da pena de enforcamento e foi condenado à prisão perpétua.

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Em 1987, aos 93 anos, suicidou-se na prisão de Spandau, onde era o único prisioneiro. Foi inicialmente sepultado, mas, diante das procissões de neonazistas ao local, as autoridades o exumaram e cremaram, espalhando as cinzas em lugar desconhecido.

Outros locais de peregrinação extremista também foram eliminados ou precisam ser constantemente monitorados: Berghof, a residência de férias de Hitler, foi demolida após a guerra. O Ninho da Águia (Kehlsteinhaus), associado à liderança nazista, é hoje um restaurante que ainda atrai alguns simpatizantes extremistas.

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Em Nuremberg, o antigo local dos congressos anuais do Partido Nazista foi parcialmente mantido como memorial e ainda recebe simpatizantes de Hitler. Nem mesmo um dos maiores criminosos da história deixa de atrair admiradores. A casa onde nasceu Adolf Hitler, em Braunau am Inn, Áustria, tornou-se uma Delegacia de Polícia, onde nem mesmo selfies são permitidas. Em frente ao edifício, uma pedra retirada de um campo de concentração foi colocada com as frases: “Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos advertem.”

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No país natal de Hitler, o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), da ultradireita populista, foi fundado por ex-nazistas em 1956. Em pleno 2024, obteve a maioria dos votos nas eleições, mas não conseguiu formar um governo.

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Fora do universo germânico, há um crescimento significativo na Europa de partidos de extrema direita que apresentam, segundo diversos analistas, elementos nacionalistas, autoritários ou discursos que remetem, em diferentes graus, a aspectos associados ao fascismo histórico: Vox na Espanha, Chega em Portugal, Reunião Nacional na França, o Partido pela Liberdade nos Países Baixos, o Reform UK no Reino Unido, e a Liga, integrante da atual coalizão de governo italiana, ganharam muita força nos últimos anos. Na Alemanha, investigações e decisões judiciais recentes apontaram vínculos de alguns membros da cada vez mais popular Alternativa para a Alemanha (AfD) com grupos extremistas e neonazistas.

Do outro lado do Atlântico, na América Latina, uma parcela significativa da população continua apoiando lideranças e movimentos de ultradireita, independentemente do comportamento e das ações de seus líderes. Sem falar na preocupação crescente com a escalada de medidas e posições antidemocráticas dentro da maior potência econômica e militar do planeta, os Estados Unidos.

Já não parece fazer sentido esperar que a lição tenha sido aprendida. Para uma parcela significativa da sociedade, por vezes bem-intencionada, o avanço do autoritarismo assemelha-se a um sonambulismo consciente: uma caminhada gradual em direção à autocracia, acreditando que ela atingirá apenas os outros.

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