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Nigéria

Pelo mundo: o gigante econômico da África

A capital da Nigéria, Lagos, é hoje uma das maiores regiões metropolitanas do planeta

Os relatos de viagem que escrevo, mais do que descrições turísticas, contêm experiências e encontros pessoais e, por isso, alguns destinos podem parecer menos convidativos. Por outro lado, um lugar que proporciona somente deleite e contemplação, sem gerar histórias e aprendizado, dificilmente acabará descrito por aqui. Um dos princípios de viajante que carrego, em viagens curtas ou longas, é que, por mais que se planeje, alguma coisa não sairá conforme o esperado, e seguidamente os imprevistos geram as melhores histórias.

Ao desembarcar pela primeira vez em Lagos, a maior cidade nigeriana e uma das maiores metrópoles do mundo, da porta da aeronave já avistei um cidadão em uniforme militar que portava uma placa com meu nome. O Comandante Osa se apresentou como agente do serviço de segurança contratado pela empresa em que eu trabalhava, e estaria por perto durante todo o período em que fiquei no país. Passado o longo trâmite de imigração, nos unimos ao restante da equipe de seis guardas armados com fuzis automáticos Kalashnikov e partimos em três veículos semiblindados. No meio daquele comboio paramilitar nada discreto, a situação, que inicialmente parecia surreal, se tornaria mais familiar ao longo dos dias que se seguiram.

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Trânsito na Nigéria é um desafio constante para motoristas e pedestres

Apesar dos milênios de civilização naquela região, o território atual da República Federal da Nigéria teve suas fronteiras definidas pela colonização britânica que, direta ou indiretamente, e quase sempre por meio da manipulação de chefes tribais, governou o país até a independência, em 1960. O nome da nação, assim como o da vizinha Níger, ao norte, provém do Rio Níger, que atravessa vários países do oeste africano até desaguar no Atlântico. Após períodos de guerra civil e ditadura militar, a democracia só se estabeleceu definitivamente com as eleições presidenciais de 1999. Densamente povoado, o país tem quase o mesmo número de habitantes do Brasil em uma área similar à do Estado do Mato Grosso, com mais de 250 etnias e ao menos 500 idiomas distintos. O inglês é a língua oficial, facilitando a comunicação entre seus mais de 200 milhões de habitantes, divididos entre o norte muçulmano, onde a lei islâmica (sharia) prevalece, e o sul cristão, baseado no direito comum herdado dos britânicos (common law). Há fontes de conflito permanentes, especialmente no norte do país, com movimentos fundamentalistas como o Boko Haram, que desde o início deste século aterroriza a população e já matou mais de 40 mil pessoas. Em 2014, o grupo sequestrou 276 meninas de uma escola local, causando repercussão internacional, com mais de cem delas desaparecidas até hoje.

Em Lagos, vários roteiros e deslocamentos até os locais das reuniões foram feitos em barcos e lanchas, considerados mais rápidos, seguros e menos expostos ao risco. As saídas do hotel se limitavam aos encontros de negócios. Foram raros os contatos com a cidade de fora dos veículos, e passei a maior parte do tempo enredado em um trânsito caótico. Mesmo assim, observei pela metrópole algumas zonas ricas e muito bem cercadas.

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Vi também alguns acidentes de trânsito enquanto lá estive, e um desses infortúnios ficou marcado. Logo adiante do carro em que eu estava, um jovem que corria para atravessar as várias pistas de uma movimentada avenida foi atropelado e morreu instantaneamente. O trânsito parou por alguns minutos. Chocado, lembro que meu primeiro pensamento foi na mãe do adolescente, que naquela hora vivia os últimos minutos de uma etapa de vida prestes a desmoronar. Rezei para que, se viva fosse, estivesse bem, antes de ser atingida por uma dor que nunca mais a abandonaria. Meses antes, na Índia, presenciei outro acidente fatal com um motociclista, e aquele pensamento no sofrimento materno também aparecera automaticamente.

Em instantes, o trânsito seguiu normalmente, desviando do corpo rígido sobre o asfalto com a naturalidade de quem evita um cão morto na estrada. Ninguém fez comentário algum, e só restaram o silêncio e a desesperança que a fragilidade humana explícita causa.

Foi uma pena, por um lado, ter ficado tão protegido naquela semana. Senti falta de um contato maior com a cultura local e desejoso de mais entendimento das virtudes e problemas do povo. Ao mesmo tempo, não deixou de ser um choque de realidade em um país que se digladia com as mazelas da colonização e convive com os problemas que a riqueza e a ganância de uma minoria sempre causam.

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