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Efeitos da pandemia

Prefeitura estima que cinco mil poderão passar fome em Santa Cruz

Foto: Rafaelly Machado

Na pandemia, Anildo não pode sair com seu carrinho para coletar materiais e, por isso, está sem salário desde que a Covid-19 chegou

Outro dos efeitos mais nocivos da pandemia do novo coronavírus pode afetar até 5 mil pessoas em Santa Cruz do Sul. A fome, causada pela falta de emprego e renda, que atinge as famílias mais carentes no município, passou a ser uma preocupação da Secretaria Municipal de Políticas Públicas e Assistência Social. A expectativa é calculada em cima dos números de benefícios sociais cadastrados e do total de refeições e cestas básicas distribuídas todas as semanas.

Na casa de Vani Vila Nova, de 30 anos, alimentos são itens em falta. Para garantir café, almoço e janta para os dois meninos, Paulo Ariel Elwanger, de 10 anos, e Wesley Gabriel Vila Nova Elwanger, de 9, ela se desdobra. A moradora do Bairro Santa Vitória está desempregada, sem acesso ao auxílio emergencial e com o Bolsa Família cortado desde março. “Não tenho mais telefone celular, pois vendi para comprar comida. Coloquei minha casa à venda. A ideia é pegar uma menor para nós e algum dinheiro na volta.” Vani conta com a ajuda do pai para dar de comer aos filhos, mas revela que a pandemia tem lhe tirado a paz. “A escola encaminhou uma doação para os guris. Não fosse isso, estaria muito pior.”

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Fé no Santo Guerreiro para enfrentar a crise
Anildo Luís da Silva tem 64 anos e está sem trabalho há um ano e meio. A alternativa foi catar material para reciclagem, separar e vender. Na casa humilde do Santa Vitória, ele exibe na sacada garrafas térmicas coloridas. As peças servem de decoração, mas viram moeda de troca para comprar comida para ele, a esposa e o filho caçula. “Eu vendo a R$ 5,00 cada uma. Uma nova custa R$ 30,00, mas a gente faz o negócio por R$ 5,00. Eu juntei com a reciclagem. Todas funcionam”, garantiu.

Seu Anildo não está recebendo o auxílio emergencial. Uma divergência com o nome da mãe, escrito de forma errada no CPF dele, não lhe permite colocar as mãos nos R$ 600,00 alcançados pela Caixa Econômica Federal. “Temos vivido de cestas básicas que o município libera, da ajuda dos filhos e de familiares que não deixam a gente ficar sem nada, mas está complicado.”

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Emocionado, o catador diz que viveu a vida toda trabalhando. Contudo, um problema na coluna o tirou do mercado formal de trabalho. No entanto, foi a pandemia da Covid-19 que lhe impediu de tirar da rua os sustento para a família.

Seu Anildo chora, meio que se desespera. Sobe a voz para reclamar da situação. Só se alivia ao falar que a esposa, Elisane Beatriz Machado, conseguiu um emprego temporário, nos últimos dias, na safra da Souza Cruz. “Estamos com muito medo de passar necessidade, de ficar sem ter o que comer e o que dar para o menino”, revelou o pai do Tiago Samuel da Silva, de 7 anos.

Na casa ainda reside a jovem Estefani Eduarda Machado, de 17 anos, enteada de Anildo. Com a imagem de São Jorge, ele bate no peito. “Esse é guerreiro, assim como a gente. A fé nele nos faz acreditar que a situação irá mudar”, complementou.

A preocupação de Anildo e Vani, personagens reais do reflexo econômico da pandemia, também assombra na Secretaria Municipal de Políticas Públicas e Assistência Social. A titular da pasta, Carina Inês Panke da Silva, conta que, com base no cadastro do Bolsa Família, que tem 5.236 famílias cadastradas, mais a quantidade de cestas básicas e refeições distribuídas todas as semanas, a fome no município poderá atingir até 5 mil pessoas.

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A estimativa leva em conta os mais pobres, que têm enormes dificuldades financeiras e estão sem renda alguma. “São vários fatores que impactam neste problema. São profissionais autônomos, que vivem de trabalho eventual e, durante a pandemia, tiveram de paralisar as suas atividades.”

Anildo está desempregado, teve de parar com as atividades de catador e também não consegue o auxílio emergencial: durante a pandemia, agarra-se na fé em São Jorge e conta com a solidariedade

Manutenção de doações
A preocupação da secretária Carina diz respeito ao futuro próximo e ao fluxo de doações de alimentos para os mais necessitados, que precisa ser mantido. Durante a última semana, a pasta contabilizou 4.861 marmitas entregues e 116 cestas básicas distribuídas para as famílias carentes de Santa Cruz do Sul.

As doações de cestas básicas recebidas pela ajuda comunitária são coordenadas e distribuídas pela Secretaria Municipal de Educação e representam cerca de 30% do total. Já as refeições diárias, assim como as demais cestas básicas, são todas elaboradas com alimentos comprados com recurso público, de fundos municipal e federal. A elaboração das alimentações é de responsabilidade da equipe de nutricionistas do município.

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