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LISSI BENDER

Reflexões dezembrinas

Originalmente o velho testamento da bíblia havia sido escrito em hebraico e o novo em grego. Durante o século IV, havia sido traduzido para o latim. Até o advento da Reforma luterana, a palavra Divina permanecia em latim e sob o domínio do clero, que a pregava nesse idioma. Martin Luther defendia a presença da bíblia em todos os lares cristãos. Tomado por essa ideia, pensou numa forma de alcançar a Sagrada Escritura às pessoas menos formadas, sem conhecimento de grego e latim. Assim, em 1521/22, em apenas quatro meses, traduziu o novo testamento para o alemão. Na sequência, o antigo testamento. A propósito, a língua alemã se desenvolveu a partir da linguagem dos antigos povos germânicos. Dos diferentes dialetos foi se desenvolvendo a língua alemã padrão, e para isso contribuiu a bíblia traduzida por Martin Luther. Ainda hoje a Alemanha continua rica em dialetos. A bíblia traduzida se difundiu muito rapidamente, graças ao invento da prensa de tipos metálicos móveis, por Gutenberg, e ao interesse pela Sagrada Escritura por parte do povo. Estima-se que já em 1533 havia, pelo menos, uma bíblia em cada dez famílias.

Antes de falecer, Martin Luther ainda fez uma última revisão. A edição revisada foi editada em 1546. Foi essa versão, atualizada pelo reformador, que os imigrantes alemães trouxeram consigo para Santa Cruz. Aliás, a Sagrada Escritura foi o livro que veio em maior número com eles. Isso também se deve ao fato de grande parte dos imigrantes saberem ler. A propósito, ter frequentado escola foi um dos requisitos observados por Peter Kleudgen (agente enviado a terras germânicas, para divulgar Santa Cruz), quando fez a seleção de alemães para virem à Kolonie. Na pesquisa de mestrado realizada por Staub, na Ufrgs, lê-se que Kleudgen tinha um minucioso cuidado na seleção de alemães que admitia na lista de imigrantes para Santa Cruz. Entre outros itens, cuidava para que fossem pessoas sem antecedentes criminais e que tivessem frequentado escola.

Uma versão original da tradução de Martin Luther esteve presente no culto ecumênico, em celebração dos 172 anos da imigração. O Andacht foi um dos eventos mais singelos e maravilhosamente conduzido pelo padre Dario e pelo pastor Jurandir. Suas sensíveis palavras foram coroadas por cantos em idioma alemão do coral Santo Afonso e pelos sons do violino de Luís Eduardo Kaufmann. O coral, acompanhado do violino entoou o canto ecumênico mais conhecido no mundo cristão, Groβer Gott, wie groβ bist Du/ – Grande Deus, quão grandioso és Tu. Na sua origem, tratava-se de uma oração em língua latina que Martin Luther traduziu nos idos de 1500 para o idioma alemão. Mais tarde, o texto foi transformado em canto. Também a Ode an die Freude/Ode à Alegria – do grande clássico da música alemã, Beethoven, ao som do violino de Kaufmann – preencheu a igreja e os corações dos presentes, deixando em todos uma semente de alegria e gratidão pela celebração e pelos empenhos para promover e honrar o legado cultural dos imigrantes.

A bíblia, presente no culto em celebração à Imigração Alemã, está impregnada de uma história muito peculiar. Vinda da Alemanha (editada em 1912, na versão original de Martin Luther), fazia parte do acervo de uma família santa-cruzense. Certo dia a casa sofreu incêndio. Os bombeiros debelaram o fogo. No meio dos escombros, o sargento militar Adilson Fernando Kärcher encontrou a Sagrada Escritura intacta. Quando foi entregá-la aos donos da casa, estes lhe a deram de presente. Sabendo de meu apreço por livros, principalmente livros antigos escritos em alemão, Kärcher confiou-a a mim e lhe sou muito grata por isso. Com as mensagens de fé presentes na Sagrada Escritura, desejo a todos um novo ano abençoado por tranquilidade e saúde, com amor e alegria em gratidão pela maravilhosa graça recebida – a vida.

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