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GILBERTO JASPER

Retomar sonhos, projetos e rotina

Quase todos da minha geração sexagenária cresceram ouvindo histórias da lendária “enchente de 1941”. Perdi a conta dos episódios que ouvi da tragédia ao pé do fogão à lenha, com meus avós relatando detalhes da até pouco tempo maior calamidade da história do Rio Grande do Sul.

As três grandes enchentes que assolaram o Estado – em setembro e novembro de 2023, e maio de 2024 – se transformaram no maior trauma que levaremos para as gerações futuras através da cultura oral.

Recém completamos dois anos do infortúnio que surpreendeu a todos – população e autoridades. Ninguém poderia imaginar que a lendária “tragédia de 1941” seria superada em larga escala.

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Desculpem voltar ao tema às vésperas de um final de semana que se anuncia ensolarado e com temperatura amena. Nasci em Arroio do Meio, um dos municípios mais atingidos no Vale do Taquari, onde poucas das 36 cidades escaparam da hecatombe.

Visito a cidade natal com frequência, mas até hoje falta coragem para percorrer alguns bairros à beira do Rio Taquari, o grande algoz. O panorama em várias ruas, algumas distantes desse curso d’água, é devastador até hoje.

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A Prefeitura começou o trabalho de limpeza dos terrenos para retirar a montanha de entulhos de centenas de outrora residências e prédios comerciais.  Há um esforço gigantesco do poder público nas três esferas – municipal, estadual e federal –, mas isso é insuficiente. 

Há pelo menos 300 famílias, em Lajeado e Arroio do Meio, morando fora de suas casas. Sobrevivem “de favor” de amigos, parentes e vizinhos. Receberam ajuda do mundo todo, mas nada é suficiente para mitigar os traumas eternos no coração e mentes de quem foi atingido pela devastação.

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Não bastassem as enormes dificuldades para reconstruir habitações e realocar uma legião de flagelados, este ano teremos um obstáculo que ignora as tragédias. Falo da eleição de outubro/novembro, que mais uma vez colocará as enchentes no centro do debate, com acusações de um lado e autoelogios de outro.

Além disso, teremos gastos astronômicos para realizar a disputa eleitoral deste ano. Argumenta-se sempre – nesta época – que “este é o preço da democracia”. Mas o preço humano, a partir da necessária utilização de parte desse dinheiro para a reconstrução, não seria mais justo, humano e digno?

Dois anos é muito tempo para pedir paciência àqueles que tudo perderam: patrimônio, esperança e entes queridos. Burocracia, demagogia e busca de protagonismo através de publicidade oficial agridem e ofendem uma população que pede, apenas, a dignidade de uma casa própria, de um terreno para retomar a rotina, criar os filhos e retomar seus projetos de vida. Isso não é pedir muito, concordam?

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