Quase três décadas de atuação na comunicação, como setorista em editorias como Polícia e Segurança, familiarizaram o jornalista santa-cruzense Ricardo Düren, 45 anos, com casos escabrosos e malfeitores marcados por desvios de conduta em sociedade. Mas poucos deles certamente tiveram o currículo de um indivíduo com o qual se defronta em seu novo livro, resultado de investigação histórica de fôlego, e que acaba de ser lançado.
“Menino Diabo” revela no próprio título, ou na alcunha, a credencial do personagem. Até para a ficção talvez as violências seriam quase inverossímeis, de tão brutais; no entanto, trata-se de caso real, e que apavorou diferentes regiões gaúchas há quase dois séculos.
A obra foi concretizada em edição do autor, com 222 páginas, e pode ser adquirida em site. O subtítulo amplia para o leitor as informações pontuais sobre o tema: “O pirata português que lutou na Revolução Farroupilha, saqueou Rio Pardo, aterrorizou a Colônia de São Leopoldo, foi capturado por um ex-soldado de Napoleão Bonaparte e deixou para trás um tesouro escondido”. São todos tópicos que remetem às peripécias do aventureiro/mercenário e apontam ainda para outras figuras históricas envolvidas nessa celeuma.
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O “Menino Diabo” em questão é o capitão Antonio Joaquim da Silva, português que acabou se integrando aos revoltosos gaúchos durante a Guerra dos Farrapos (1835-1845), e, liderando bandos, percorreu diferentes regiões do Estado, em lanchões ou por terra, espalhando terror. Ainda que supostamente estivesse a serviço de uma causa, e subordinado a líderes, o mercenário português tornou-se de tal forma cruel e temido que, mais do que lutar por uma possível autonomia do Rio Grande, mobilizou esforços, isso sim, para persegui-lo.
Logo no princípio do livro, Düren apresenta uma teia de relações entre os personagens históricos daquela época, e uma linha do tempo, estratégia que tende a ser providencial para os que não estejam plenamente informados sobre fatos e circunstâncias. Em adendo, dezenas de fotografias selecionadas pelo autor deixam os leitores ainda mais bem informados sobre esses personagens, alguns de forte expressão inclusive para a história do Vale do Rio Pardo e, em especial, de Santa Cruz do Sul.
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Ocorre que o “Menino Diabo” atuou efetivamente em cenários como o Delta do Guaíba, em Porto Alegre, onde atacou as forças do Império, e em Rio Pardo, onde teria praticado saques e extorsões no segundo semestre de 1836. Na fuga, teria escondido um tesouro que, supostamente, poderia ainda estar em algum local na região, ou no ambiente da antiga Colônia de São Leopoldo, para onde se deslocou e onde por fim foi morto.
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“Não há santos nos conflitos da história gaúcha”, enfatiza Düren
Ler e, passo seguinte, escrever sempre se mostraram grandes predileções na vida do santa-cruzense Ricardo Düren. Tanto ia bem nessas áreas na escola que ao natural fez a opção por Jornalismo ao definir um curso na graduação, feita na Unisc. Em 1999, ingressava na Redação da Gazeta do Sul, à qual ficou vinculado por 22 anos, na condição de repórter em editorias como Política e Polícia, e até ocupar a função de editor executivo. Há quatro anos atua na equipe do jornal Zero Hora, também como editor.
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Nascido em Santa Cruz, na região da Pedreira, há mais de duas décadas radicou-se em Vera Cruz, ao lado da esposa Patrícia e dos filhos Ricardo Júnior, Isadora, Yasmin e Ágatha. Foi das coberturas em segurança pública e, em paralelo, de suas pesquisas sobre história regional, algo que sempre o fascinou, que reuniu parcela dos temas e assuntos agrupados em seus livros. “Menino Diabo”, que acaba de lançar, é o sétimo.
Estreou em 2013 com um volume de contos, “Assassinato na Real Biblioteca”, lançado pela Editora Gazeta.
Pelo mesmo selo ainda lançaria “O homem da sepultura com capacete: uma história inspirada em fatos reais”, em 2021. E também colaborara na antologia “Nem te conto”, editada em três volumes entre 2012 e 1014. Em paralelo à atividade jornalística, ampliou a formação literária, com o mestrado e o doutorado em Letras, pela Unisc. Entre seus livros, destaca-se ainda “O Caso Kliemann e seus personagens misteriosos”, de 2024.
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Entrevista Ricardo Düren — Jornalista e escritor
Gazeta do Sul — Como surgiu o interesse em pesquisar sobre o Menino Diabo?
Ricardo Düren — Há muito tempo eu ouvia falar na lenda do tesouro do Menino Diabo, que corre por Rio Pardo, e ficava intrigado com ela. Ouvia “causos” de aventureiros que se punham a escavar nas matas, ou de lagoas mal-assombradas nas quais o tesouro repousaria. Então decidi investigar o que havia de real nessa história. Acabei localizando não só documentos históricos que confirmam que Menino Diabo foi um personagem real da Revolução Farroupilha, como também indícios concretos de que ele realmente reuniu um tesouro por meio de saques, sequestros e subornos. E esse tesouro ainda deve estar em algum lugar.
Como foi o processo de levantamento de informações?
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Foi uma investigação à moda antiga. As principais fontes são documentos reunidos em arquivos históricos. Embora boa parte desse material tenha sido digitalizada, não é acessível a motores de busca, nem mesmo à inteligência artificial. Em alguns casos, são reproduções datilografadas dos textos originais que, muitos anos depois, foram fotografadas. Então, não há como fazer uma busca por palavras-chave – é preciso olhar um por um, ler tudo. Foi assim que me deparei, por exemplo, com cartas originalmente escritas pela pena do próprio Menino Diabo. Mas também é preciso considerar a tradição oral dos mais antigos, fazendo um cruzamento entre documentos, bancos genealógicos, datas, lugares e, claro, lendas. Não há como desconsiderar as lendas.
Uma ampla gama de personagens reais, verídicas e históricas, comparece em Menino Diabo. De certo modo, é uma pesquisa que proporciona também mergulho efetivo na história regional e estadual, não é?
Sem dúvida. A saga do Menino Diabo em território gaúcho se cruza com a de grandes personagens da Revolução Farroupilha. Para se ter ideia, ele chegou a estar na mira de ninguém menos do que Bento Manoel Ribeiro, que entrou para a História como o grande vira-casaca da revolução. Também esteve por trás, supostamente mediante suborno, da misteriosa fuga de Silva Tavares, tenente-coronel imperial caçado por Antônio de Souza Netto e capturado por David Canabarro. Mas há também uma série de personagens reais anônimos cujas vidas cruzaram o seu caminho. Um dos mais icônicos é Maria Catharina Knierim, imigrante alemã que testemunhou o marido ser friamente assassinado pelo Menino Diabo em Entrada para Bom Jardim, hoje Estância Velha. Por meio de cruzamento de dados, foi possível reconstituir a epopeia que foi a vida dessa mulher, desde sua emigração até se tornar matriarca de uma das famílias mais prósperas da então Colônia de São Leopoldo.
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Houve muitas viagens também para pesquisas in loco? Há muitas fotos suas, de autor. Como foi pesquisar nos locais?
Embora muito embasada em documentos, a pesquisa teve alguns passeios por lugares relevantes. Rio Pardo é o principal. Caminhar por Rio Pardo proporciona uma viagem no tempo para qualquer interessado na história do Estado. A Rua da Ladeira, calçada por escravizados, já existia quando Menino Diabo saqueou a então vila, em 1836. Já a Capela de São Francisco, onde é mantida a tradição de doar vestidos de noiva à imagem de Nossa Senhora da Boa Morte, nos conduz também a lendas sobre paixões proibidas. E os canhões que demarcam onde ficava o Forte Jesus, Maria, José, nos altos do Bairro Fortaleza, nos transportam a tempos ainda mais distantes, quando o Rio Grande do Sul era uma terra inóspita, de fronteiras sendo desenhadas a ferro e fogo. São lugares que nos permitem sentir na pele como o Estado foi sendo construído.
O Menino Diabo remete a um momento histórico de enfrentamentos violentos e inesperados. Em que medida esse personagem se diferencia ou se aproxima de outros no cenário da revolução?
Não há santos quando falamos dos conflitos que marcaram a história gaúcha. A degola, a tortura nas estacas, eram praxe nas bandas ao sul do continente desde os tempos das peleias com os castelhanos, independentemente do lado em que se lutava. Não foi diferente na Revolução Farroupilha, muito menos na Federalista. Mas o Menino Diabo se destacava pelo prazer sádico. Fazia jus ao apelido. Prova disso foram as atrocidades que cometeu contra colonos alemães nas vilas e picadas ao redor de São Leopoldo.
Como pano de fundo permanece o mistério de um tesouro que poderia estar escondido, inclusive em Rio Pardo. Quase dois séculos após os acontecimentos, o imaginário em torno disso permanece forte?
Esse imaginário sobrevive, e não só entre os mais antigos. Não é raro encontrar alguém que é filho ou neto de algum aventureiro que fez buscas ao tesouro. E pipocam em todo o Estado diferentes versões sobre onde o tesouro do Menino Diabo estaria enterrado. Toda história sobre tesouros e piratas atiça nosso imaginário. O mais curioso, nesse caso, é que estamos falando de uma história real.
O novo livro amplia um leque de pesquisas que tens feito, em torno de acontecimentos ou personagens cercados de bruma, quase lendas. O que o motiva nessa vertente de investigação literária ou jornalística?
A historiografia foca os grandes personagens. Bento Gonçalves, Garibaldi, Caxias… Aprendemos sobre essas figuras na escola. Mas há uma gama de personagens secundários, esquecidos pela História e pelo culto aos heróis, cujas vidas foram epopeias. Menino Diabo é um deles, Maria Catharina Knierim é outro. O imigrante Mathias Mombach, veterano das guerras napoleônicas e autor da captura do Menino Diabo, é mais um exemplo. Em meu livro anterior, sobre o caso Kliemann, falei dos anônimos que povoaram as investigações sobre o assassinato de Margit, transformaram o inquérito em fantasia e contribuíram para a morte de Euclydes Kliemann em Santa Cruz do Sul. O que busco é deixar um registro da saga dessas figuras anônimas, mas com linguagem jornalística, para proporcionar uma leitura atraente.
Nesse sentido, algum novo tema do gênero ocupa tua atenção na atualidade? Quais os planos para futuras pesquisas?
Há muitas histórias reais, das boas, perdidas por aí. Leitores me procuram com uma gama de sugestões e a lista é grande. Ainda terei de eleger qual será a próxima aventura.
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