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ROMEU NEUMANN

Um Santuário não se negocia

Perdoem-me os que, movidos por suas razões, pensam diferente. Mas não creio que o imbróglio que envolve a transferência do Santuário de Schoenstatt, em Santa Cruz do Sul, esteja resolvido com a aprovação, pela Câmara de Vereadores, de projeto que autoriza o Executivo a indenizar a Sociedade Mãe e Rainha por construções feitas na área (?) e que estabelece que o Santuário permaneça intacto até que um novo seja construído. Foi o desfecho possível, elaborado a partir do empenho do Ministério Público, do Executivo e Legislativo Municipal, de lideranças e devotos do Movimento de Schoenstatt e das irmãs da congregação.

Mas questões deste impacto, na minha visão, não se restringem a uma equação jurídica e formal. Há muito mais do que patrimônio público envolvido nisso. É o sonho, o empenho, a devoção de uma comunidade inteira que estão sendo colocados à prova.

Pense comigo: como seria nossa Santa Cruz do Sul se, na esteira das administrações municipais que se sucederam, não se agregassem os valores comunitários, o senso de coletividade que move as pessoas, gente simples, mas comprometida, que faz pulsar a vida nas comunidades? Quantas pessoas, anonimamente, empenham o melhor de si para alavancar demandas do seu bairro, do seu grupo, ou que contemplem toda uma população? E o fazem por convicção, movidas por uma poderosa energia que não visa benefícios pessoais, mas o bem coletivo.

Igrejas monumentais, centros comunitários de ensino, de acolhimento e lazer, uma rede de apoio aos mais necessitados, a UTI Pediátrica, são apenas alguns exemplos do imenso poder de mobilização da nossa gente. Gente que acredita, que luta, que contribui e se doa porque confia. O resultado haverá de justificar todo o sacrifício. Essa é a motivação que move o exército anônimo de beneméritos desta comunidade.

O Santuário de Schoenstatt é essencialmente isso. A área doada pelo poder público municipal, às margens da BR-471, deu berço e abrigo para o sonho de implantar um recanto de paz e de conexão com a Mãe Três Vezes Admirável. Quantas lágrimas de aflição, de gratidão ou simplesmente de louvor regaram este espaço sagrado ao longo de décadas!

Até que uma decisão unilateral, intempestiva e irredutível, de personagens que não são e não foram protagonistas desse enredo, quebrou os pilares que sustentaram este sonho. A motivação – tão vaga quanto inconsistente – alimenta desconfiança diante do montante da indenização (R$ 1,8 milhão) a ser paga com recursos públicos para o caixa da congregação.

Vamos simplificar: a congregação não quer ficar naquele espaço, não quer o Santuário que a comunidade construiu, mas se apropria do que de mais valioso ele contém: o altar, os móveis, a estátua do fundador Pe. José Kentenich. Deixa para trás somente a casca de um sonho.

Penso que devemos louvar o desfecho nos aspectos formais/legais em relação à área (pública) e ao imobilizado. Mas as feridas que sangraram o pacto de confiança que a comunidade (pelo menos grande parte dela) celebrou com a congregação, estas vão demorar a curar.

Mas ainda há uma chance: que sejam respeitadas as vontades das partes envolvidas.

– A congregação decidiu ir embora. Quer construir um novo Santuário, no Centro da cidade. Que assim faça.

– A Prefeitura está disposta a retomar a área às margens da BR-471 e pretende ocupar, mediante indenização, as instalações ali construídas para implantar uma base educacional.

– Nem uma, nem outra dessas condições impede que o Santuário fique onde está, nas mãos de quem o construiu: intacto, com o altar e todos os demais pertences que lhe dão vida e identidade, e em caráter definitivo.

Uma associação de devotos do Movimento, comprometida com o ideário de Schoenstatt, terá condições de organizar atividades, o acesso dos fiéis e zelar pela área, com o apoio espiritual da Igreja católica. Que este desgastante episódio não fulmine um dos mais sagrados valores do povo desta terra. Povo que abraça causas e luta por elas com toda a energia. Porque confia, mas não aceita ser deixado para trás ao longo da caminhada.

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