“Como a aurora precursora / Do farol da divindade / Foi o 20 de setembro / O precursor da liberdade”, cantam os gaúchos, ao entoar a primeira estrofe do Hino oficial do Rio Grande do Sul. Há, ali, uma menção direta a uma data, esse 20 de setembro que celebramos neste domingo, e que, a partir da alusão a um embate do passado, a Revolução Farroupilha, ilumina a importância que todo e qualquer povo (certamente também cada indivíduo) dá ao sentimento de liberdade. Mas liberdade não é o indivíduo fazer somente o quer; liberdade pressupõe um equilíbrio justo em que aquilo que um considera liberdade seja garantido e assegurado também como liberdade para cada um dos demais.
Neste aspecto, talvez os dias de hoje ofereçam um dos maiores desafios e um dos maiores paradoxos da sociedade contemporânea: num mundo em que tantos (países, regiões) são dependentes econômica e socialmente de outros, alguém pode efetivamente ser livre? E, curiosamente, o próprio Hino sul-rio-grandense já deixa a advertência, algo severa, logo adiante: “Mas não basta, pra ser livre / Ser forte, aguerrido e bravo / Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”. Haveria aí muito elemento a estimular a reflexão, até para que se pudesse esclarecer, em grande grupo, o que, hoje, se entende por “virtude”.
O refrão dá algumas indicações: “Mostremos valor, constância”. O valor nasce da educação, e a constância da persistência, da resiliência, da cooperação. É assim em tempos de guerra, e também em toda e qualquer época. O Rio Grande do Sul já enfrentou inúmeros momentos turbulentos. Alguns antecederam a própria Revolução Farroupilha, que se deu entre 1835 e 1845, com as décadas de estabelecimento das fronteiras no Sul da América, envolvendo interesses portugueses e espanhóis, depois de brasileiros e dos vizinhos castelhanos. Mesmo após a assinatura do tratado de paz entre a revoltosa província gaúcha e o Império, houve muitos embates, dos quais a Revolução Federalista, de 1893 a 1895, talvez tenha sido a mais traumática; mas não a última, pois ao longo do século 20 muitas escaramuças mais houve.
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No entanto, se o século 21 não trouxe guerras, trouxe devastação. O que foi, entre os dramas gaúchos, a enchente de 2024? Em que categoria classificar essa enxurrada que, ao levar adiante paisagens, lavouras, fauna, flora, pessoas e seus bens, nos confrontou com um pesadelo onipresente, o das mudanças climáticas e da degradação ambiental? Há decorrências de atos individuais e coletivos, e por elas se costuma pagar. Agora, como lidar com o novo normal do clima se ele não pergunta CPF ou CNPJ na hora de se presentificar, de dia ou de noite? Onde buscar abrigo quando nem pobres, nem ricos, nem desvalidos, nem endinheirados estão seguros ou a salvo? É sobre esse novo normal do Rio Grande do Sul que talvez seja preciso refletir e conversar, neste 20 de setembro e a cada dia.
No Hino, cantamos, com convicção: “Sirvam nossas façanhas / De modelo a toda Terra”. Suportar a enchente foi uma grande façanha. Mas de modelo a toda a Terra também devem servir nosso valor e nossa constância em mudar este mundo (o nosso e o de todos) para melhor. Para bem melhor. E melhor para todos.
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