Happy Hour 01/04/2018 23h36 Atualizado às 09h46

Vizinhos e suas profissões

Gostava de jogar bolita com meu amigo Divaro Schroeder, filho do seu Germano, proprietário do açougue e de um matadouro

Quando falo da minha infância em Trombudo e especialmente da casa onde nasci, localizada na entrada de Formosa, já se passaram sessenta anos. Quem viveu naquele tempo sabe que usávamos as roupas dos irmãos mais velhos, puídas pelo uso e cheia de remendos com tecido qualquer, não necessariamente da mesma cor. Era comum andarmos com as roupas rasgadas no traseiro, aparecendo parte das nádegas brancas dos guris, sem sentimento de culpa ou vergonha.

O nosso vizinho da frente era o ferreiro Arnaldo Roehrs, que fabricava as ferramentas para os agricultores do distrito.  Enxadas, pás, grades para cultivador, arados, ferraduras e até as carroças e charretes eram montadas em duas etapas. As madeiras eram confeccionadas pelo marceneiro e os outros apetrechos de ferro eram obra do ferreiro.

Os meus irmãos mais velhos já acordavam de madrugada, no inverno, para ajudar na ferraria e se esquentar ao redor do fogo. Gostavam de puxar o fole, que deixava o carvão avivado para encandecer o ferro e torná-lo macio, a fim de moldá-lo de acordo com a ferramenta que estava sendo confeccionada a marteladas. Na ferraria existiam duas bigornas e quando eram usadas ao mesmo tempo, o som nada agradável de ferro com ferro se ouvia de longe.

Eu também gostava de atravessar a rua e assistir ao trabalho do seu Roehrs e seus filhos Uli, Dore e Zeno, que já aprenderam a profissão desde pequenos. Não tinha moleza e o trabalho era cansativo. Lidar com as pesadas barras de ferro exigia muita força aos jovens ferreiros.

Gostava de jogar bolita com meu amigo Divaro Schroeder, filho do seu Germano, proprietário do açougue (ainda existe) e um matadouro (hoje extinto) bem pertinho de casa. No dia da carneação, meu prazer era assistir à matança.

O gado era levado do campo até um cercado anexo ao matadouro. Lá escolhiam os animais que seriam sacrificados e soltavam os demais. O boi que seria morto era conduzido para um brete. Um frio e calmo especialista era incumbido de dar a facada mortal. Tinha que ser certeiro e acertar infalivelmente o coração para que o sofrimento fosse mínimo. O sangue espirrava em abundância. Pendurado num guindaste, os empregados tiravam o couro e abriam sua barriga. Extraíam os miúdos, disputadíssimos pelos pobres da localidade, que preparavam com maestria os gostosos pratos, que hoje fazem sucesso no inverno.

Nas quermesses, na hora do meio-dia era servido um suculento churrasco. Enormes valetas eram abertas no pátio e as bananeiras serviam de apoio para os espetos de pau. As carnes eram colocadas em enormes gamelas e temperadas com salmoura. Naquele tempo não existiam os fiscais da saúde, que inspecionavam a higiene. Era tudo feito sem o mínimo cuidado.