Happy hour 16/04/2018 00h50 Atualizado às 10h40

Futebol de mesa

Grêmio e Internacional eram representados por aqueles colegas que tivessem o melhor plantel. A bola era um botão minúsculo de camisa

Meus pais alugaram uma casa na esquina da Ramiro Barcelos com Gaspar Silveira Martins. Moramos de aluguel por alguns anos. Depois meu pai comprou um chalé na Ramiro, uma quadra abaixo da Rua Rio de Janeiro. Esse bairro era denominado Atrás do Céu. Não havia calçamento e a rua era dividida pelos postes da iluminação pública.

Além das peladas de futebol nos campos irregulares das imediações, outro esporte muito disputado na minha juventude era o futebol de mesa. O campo era uma mesa retangular montada sobre os cavaletes, fabricada para tal fim. Os jogadores eram confeccionados com material plástico, que chamávamos de botões de camada.

 Cada guri tinha um time formado por titulares e reservas. Grêmio e Internacional eram representados por aqueles colegas que tivessem o melhor plantel. A bola era um botão minúsculo de camisa, geralmente tirado da camisa social do pai ou comprado da família Werlang, loja que vendia artigos para costura.

 O meu time era o Cruzeiro de Belo Horizonte, considerado um time forte. Na camisa havia a cor azul do meu Grêmio. Recordo-me de alguns nomes de atletas: Wilson Piazza, Dirceu Lopes, Tostão, Nelinho. Em cada botão era colado o nome dos jogadores da equipe.

 Os jogadores de botão tinham valor de troca ou de venda. Os goleadores eram os mais valorizados, sendo que um bom centroavante valia uma fortuna, praticamente inegociável. Hoje seria comparado aos grandes craques de futebol, cujo centroavante também tem o valor que nenhum jogador alcança. Basta ser goleador. Os craques do meu time eram os meio-campistas. Meus jogadores inegociáveis eram Dirceu Lopes e Tostão. Se alguma transação acontecesse entre os guris e o jogador era considerado craque, em troca recebiam diversos atletas. Alguns se arrependiam do negócio. Sua equipe baixava de rendimento.

 Os jogos aconteciam sábados à tarde no porão da casa de dois amigos. A torcida era numerosa. Os jovens do bairro e das ruas vizinhas vinham assistir. Ficavam sempre de olho em algum goleador que se sobressaísse. O juiz era escolhido na hora, tomando-se o cuidado de ser um cara equilibrado e neutro, preferencialmente alguém que morasse em outro bairro. Os campos, confeccionados por marcenarias, assemelhavam-se aos de futebol. Para os jogadores deslizarem melhor, passávamos parafina no tablado, na palheta e nos jogadores. As regras tinham como base as do futebol. O campeonato se estendia durante alguns meses e foi uma fase muito interessante da pré-adolescência e da adolescência.
 Não pense que os jogos transcorriam sem nenhum incidente. Os bate-bocas eram constantes. Quantas vezes os envaretados abandonavam os jogos. Não aguentavam a flauta. Ficavam dias de beiço caído. O tempo se encarregava de fazer tudo voltar ao normal.