Happy hour 06/08/2018 01h25 Atualizado às 09h47

Admissão ao ginásio

Nessa época, as escolas estaduais tinham uma qualidade invejável. O nível de exigência era alto

No ano em que nossa família se mudou para a cidade, repeti o último ano primário no Colégio Bartholomay. Esse já era o terceiro ano de 5ª série, não por reprovação e sim por falta de ginásio em Trombudo.  

Acostumado a obedecer aos mais velhos e ter o maior respeito com os professores, fui obrigado a entrar na malandragem dos guris da cidade, que faziam “gato-sapato” durante as aulas. Se não aderisse, me ameaçavam com uma surra na volta para casa. Entrei na onda deles. Acostumado com o modo pacato e obediente do interior, tive o primeiro choque cultural da minha vida.

Nas décadas de 60/70 se fazia o exame de admissão ao ginásio. Para aqueles que não pertenceram a nossa geração, fica estranho falar nisso em pleno século 21. Tenho certeza que aguçarei a memória de muitos colegas daqueles tempos.
Naqueles anos, os alunos que vinham do primário (hoje seria o ensino fundamental) tinham que se submeter a uma espécie de vestibular. Nesta seleção só conseguia êxito o aluno que tivesse feito um bom primário. As turmas que passavam nesta seleção eram homogêneas. Tive a felicidade de ser um deles, eis que estava superpreparado para o desafio.

Fiz os quatro anos de ginásio no Colégio Estadual Ernesto Alves de Oliveira. Era nos fundos do Colégio Santa Cruz, que na época tinha somente o primário. Ficou por muitos anos funcionando no antigo endereço.

Nessa época, as escolas estaduais tinham uma qualidade invejável. Os professores eram os mesmos dos colégios particulares e o nível de exigência era alto. Nos vestibulares, os alunos competiam de igual para igual, logicamente para uma minoria que tinha condições de continuar os estudos.

 Os anos em que lá estudei foram difíceis para mim. Fui um aluno revoltado. Incomodava a professora de Língua Alemã. Conhecia o dialeto da colônia de Trombudo, todavia se faltasse alguma palavra no meu limitado vocabulário, misturava o português com o alemão. O diálogo acontecia de qualquer jeito.

O nosso diretor era o professor Ivo Muller, que sugeriu que fosse para o turno da noite. Argumentou que seria ótimo eu estudar em companhia dos adultos, para adquirir maturidade. Essa mudança foi benéfica. Pouco tempo depois fui trabalhar de cobrador no Sindicato dos Comerciários.

Os que estudaram no Ernesto Alves se tornaram cidadãos dignos. Uma minoria aprontava molecagens em sala de aula. Se fosse algo grave ou reincidente, era expulso pelo professor, que o obrigava a se apresentar ao diretor. Esse, além da admoestação veemente, encarregava o faltante de levar um bilhete aos pais, convocando-os para uma reunião. E repassar o recado tornava-se uma tarefa difícil para o guri, que o entregava para a mãe, que comunicava o marido. O castigo era a consequência natural.