Mundo de letras 24/05/2019 19h30 Atualizado às 18h56

Léla Mayer e a arte de contar histórias

Fisioterapeuta, professora, pedagoga e escritora, mas acima de tudo, contadora de histórias

Era uma vez uma menina que, nascida em uma “ilha”, sonhava em sair pelo mundo para conhecer de perto os personagens que via na televisão, e também no enredo das histórias que ouvia dos pais. Então cresceu, e de fato partiu rumo à cidade grande. Passou pela capital, ingressou no curso de Fisioterapia, mas nas páginas de sua história estava escrito que seria... contadora de histórias. Essa é Léla Mayer, a que nasceu Valéria e que tinha uma babá de apelido Lalá, que achou divertido formar rima poética com a nenê da casa. Assim, a menininha que se dizia Valéla tornou-se a Léla de Lála, e hoje é a Léla de todos nós. A Léla que é professora, pedagoga, escritora, e, claro, contadora de histórias.

Tudo começou em General Câmara, às margens do Rio Taquari, tão perfeitamente equidistante entre Porto Alegre, a capital que atraía a jovem Léla, e Santa Cruz do Sul, na qual viria a escrever parcela de sua trajetória. A pequena General Câmara, com seus 8,6 mil habitantes na atualidade, foi palco de eventos históricos. Ali Léla surgiu para o mundo, no dia 29 de novembro de 1971, primogênita do casal Carlos Dantet da Silva Kroeff, o “Dantet” em homenagem ao seu pai, que assim se nomeava, e Bety Neves Kroeff. Mais tarde, Léla ganharia duas irmãs, a Verônica, que reside em Charqueadas, e a Cássia, que permanece na terra natal.

Como revelam os nomes da família, Léla descende de mãe que é neta de galego e pai de origem alemã. A influência galega viria a circular forte em seu sangue. Os pais eram ambos professores: seu Carlos de Matemática; dona Bety de Artes e Técnicas Domésticas. Ficou em General Câmara até concluir o equivalente ao ensino médio, aos 17 anos, tendo frequentado a escola Vasconcelos Jardim, a cinco minutos a pé de casa. “Bem, lá tudo é muito pertinho”, brinca.

Horizonte

No entanto, sua cidade natal é cercada por dois rios, o Taquari e o Jacuí, e rio é convite a devanear. Seus pais iam de trem a Porto Alegre. E navios desciam o Taquari até o Jacuí, e seguiam rumo à capital. “Desde cedo tive fixação por temas artísticos. Começa que meus pais sempre liam, e o pai também tocava guitarra solo. Ele era fã de rock instrumental, e ouvia Beatles e The Ventures”, recorda.

Léla lembra de os pais deixarem ela ter a TV maior, a da sala, à disposição para assistir ao “Pra começo de conversa”, programa apresentado por Eduardo Bueno, o Peninha. Sua atenção era atraída para Porto Alegre. Não surpreende que, aos 17 anos, formada em Magistério, migrasse para lá. Foi a fim de seguir os estudos (pensou em fazer Publicidade e Propaganda), mas começou a trabalhar em clínica-escola que atendia crianças com paralisia cerebral. O que mudou sua vida. “Encontrei-me na função”, diz. Um ano e meio depois ingressou no curso de Fisioterapia na Feevale, e mudou-se para Novo Hamburgo.

Seus pais, nesse meio-tempo, haviam se mudado também. Para Vale Verde, então ainda Vila Melos. Quando Léla vinha visitá-los, estendia os passeios a esse novo ambiente. E foi ali que conheceu Cláudio Luiz Mayer. Ela estava com 19 anos, e começaram a namorar. Em 1996, concluiria o curso em Novo Hamburgo. Cláudio, que antes trabalhara em Camaquã, transferira-se para Santa Cruz do Sul. “Eu me formei numa semana, e na outra também me mudei para Santa Cruz”, menciona.

A nova fase de vida
Formada e casada, começava uma nova fase na vida de Léla, agora Valéria Neves Kroeff Mayer. Uma fase que a conduziu para o amadurecimento profissional, e para a literatura. Primeiro, atuou junto à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Depois uma colega a convidou para, juntas, abrirem uma clínica em Vera Cruz, e depois Santa Cruz. E em 1999 ingressou no mestrado em Desenvolvimento Regional, concluído em 2001. Mais tarde entrou no mestrado em Educação, na Ufrgs, concluindo-o em 2009. E fez Pedagogia, pela Uninter, em 2015, em Santa Cruz.

Nesse meio-tempo foi mamãe. Chegou João, hoje com 15 anos, e que já se aventura pelo basquete. E também chegou Arthur, mocinho com o qual vivenciou forte abalo. Acometido de síndrome convulsiva grave, acabou falecendo em 2018, aos 8 anos, ou, como explica, “tenho um filho que hoje mora no asteroide B-612”, a morada do Pequeno Príncipe, no enredo do romance de Antoine de Saint-Exupéry. “Eu e ele lemos juntos, muitas e muitas vezes, esse livro, e assim essa foi uma forma de eu tentar assimilar a perda”, comenta, sem conseguir ocultar a emoção.

E a exemplo do Pequeno Príncipe, é na literatura que Léla busca energia e uma espécie de entendimento acerca dos fatos incontornáveis da vida. Em Santa Cruz, passou a lecionar junto à Unisc, no curso de Fisioterapia, em disciplinas voltadas a neurorreabilitação, e inclusive junto a turmas de Psicologia e Pedagogia. Quando da sua mudança para a capital, havia começado a prestigiar ao máximo a agenda de teatro, de espetáculos diversos e de shows musicais, e os ambientes da cultura – tudo aquilo com que, em sua terra natal, sempre sonhara.

“A gente se narra”

Em um momento contemporâneo tão marcado pela instantaneidade das mídias sociais e da quase saturação da comunicação intensiva, nas mais diversas plataformas, por que a arte de contar histórias e a dedicação de tempo a esse tipo de atividade ainda permanecem? Léla é taxativa. Para aproximar pessoas. “O narrar é apenas um pretexto para o encontro”, garante. “Porque essa é a essência do ser humano. E ela não tem idade, não tem tempo nem lugar. A gente é o que é não porque segura uma xícara ou faz alguma coisa. A gente é uma espécie que se narra. A gente se narra, e é melhor que se dê conta disso o quanto antes, para não desperdiçar alguns dos melhores momentos da vida. O contador busca e preserva, em qualquer lugar e época, a riqueza de estar junto, aqui e agora, olho no olho, e isso fala muito alto no imaginário de cada um de nós.”

O QUE LER

Livros publicados por Léla Mayer

Obs.: participou ainda de várias antologias e coletâneas de crônicas, ensaios, artigos e histórias infantojuvenis.

Foto: DivulgaçãoA saia da Carolinade 2017, também com ilustrações de Joana Puglia
A saia da Carolina de 2017, também com ilustrações de Joana Puglia
Foto: DivulgaçãoGosto de infânciade 2017, com arte de capa de Joana Góes
Gosto de infância de 2017, com arte de capa de Joana Góes
Foto: DivulgaçãoNão grita, Tião!!!de 2015, com ilustraçõesde Joana Puglia
Não grita, Tião!!! de 2015, com ilustrações de Joana Puglia
Foto: DivulgaçãoHistórias do mundo pra todo mundoorganizado por Léa Carrol e Cathe de León, de 2012
Histórias do mundo pra todo mundo organizado por Léa Carrol e Cathe de León, de 2012

O mergulho intenso na literatura

Em Santa Cruz intensificou o envolvimento cultural. “Em casa, com meus pais, sempre convivi com livros e discos”, frisa. Já atuando como professora e pedagoga, arriscou participar de um concurso de crônicas da Unisc, e teve texto selecionado para livro lançado pela Edunisc.

Mais tarde, em 2012, a escritora Léia Cassol convidou-a para integrar uma antologia chamada Histórias do mundo pra todo mundo, que ela organizava em parceria com Cathe de León. A proposta era que contadoras de histórias recontassem contos clássicos, apresentando-os em nova roupagem. Léla participou com a recontagem de “A quase morte de Zé Malandro”, original de Ricardo Azevedo. Foi o que bastou para que ela própria investisse em caminhada autoral. Assim surgiu Não grita, Tião!!!, em 2015, pela Edunisc, em parceria com a ilustradora Joana Puglia. E em 2017 elas reprisariam a experiência em A saia da Carolina, este já lançado por selo que ela própria criou, o Lelaludens.

Neste, recuperava sua fascinação pela cultura galega, que tão alto falava em seu imaginário, inspirando-se em uma música folclórica da Galícia. E ampliou seus trabalhos com a edição, também pela Lelaludens, do conto Gosto de infância, em 2017. Para completar, foi convidada e selecionada pelo Sesc/SP, a partir de oficina que ministrou no projeto Proler, para integrar a coletânea Contação de histórias: tradição, poéticas e interfaces, de 2015, ao lado de nomes do quilate de Ariano Suassuna e Rubem Alves.

Com as publicações, e com o aprimoramento de sua habilidade de contadora de histórias, cada vez mais passou a ser convidada para feiras do livro em todo o Estado. E participou de encontros País afora, a exemplo de sua recente presença em Ponta Grossa, no Paraná, numa espécie de convenção de alguns dos maiores contadores do Brasil.

E engajou-se na organização de autores, tendo sido eleita vice-presidente administrativa da Associação Gaúcha de Escritores (AGE), na atual gestão, e ainda para a Academia de Letras de Santa Cruz do Sul. E escreve. Sempre escreve. Ainda para este ano pretende concluir seleção de crônicas dentre as que publica regularmente, como colunista, no Jornal de Candelária. E deseja agrupar textos dos alunos de um curso de extensão de contação de histórias, em que desafia o grupo a reescrever contos folclóricos clássicos. Por fim, dedica-se ao processo de atualização/adaptação de um conto de Natal clássico da... Galícia. Uma vez mais, a (sua) Galícia.