– Osvaldo não entende o que é um algoritmo. Às vezes acho que ele é burro.
Olho resignada para Elena. E, com vontade de rir, me limito a dizer que o tema é árduo. Saio da conversa pensativa. De quantos Osvaldos ė feito o mundo? Pelas estimativas, 80% das pessoas já ouviram falar dos algoritmos, embora apenas algo entre 10% e 30% tenha consciência de como eles influenciam suas escolhas. Em alguns estudos, 55% percebem seu funcionamento. E, mesmo assim, sem compreensão profunda.
Osvaldo, tenho certeza, não é burro. Mas habita o continente daqueles que têm grande dificuldade para assimilar que vivemos cada um em sua “bolha”. A minha, por exemplo, é dos que se interessam por feminismo, geopolítica, gatos, arquitetura modernista e ecologia. Se você não estiver nessa, as chances de acharmos que vivemos em dois planetas diferentes é significativa. E, acredite, você nem precisa ter Instagram ou usar WhatsApp para isso acontecer.
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Claro, nem sempre foi assim. Quando Al-Khwarizmi ajudou a fundar a Álgebra e a difundir no Ocidente os números indo-arábicos (0 a 9), o algoritmo era uma espécie de ideia sem corpo. Al-Khwarizmi, nome arabinizado de um sábio persa do século IX que trabalhava no meio intelectual de Bagdá, legou o termo ao futuro – “Algoritmi”, depois “algorismus” e depois “algoritmo”. Palavra que passou a significar regras de cálculo e, mais tarde, qualquer procedimento passo a passo. Hoje, resume um tipo de “receita” que usa nossos dados para nos mostrar o que vemos, compramos ou fazemos.
Então, se é assim tão simples, tão inocente, por que a resistência em entender? Primeiro é preciso considerar que os percentuais citados acima são projeções. Talvez o panorama não seja tão ruim. Talvez seja pior. Talvez existam uns 50% de Osvaldos, ou mais. Ou menos. Gente que não faz ideia de quanto os algoritmos podem manipular nossa atenção e criar bolhas que distorcem nossa visão da realidade. E que esse megassistema manuseia dados e mentes tendo como prioridade o lucro. Poder e lucro. Ou seja, lucro.
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Essa percepção de que tudo decorre de pensamentos e decisões anteriores, muitas vezes alheias a nossos sentidos, não é coisa nova. Vem da Filosofia e de sua prima, a Religião. Há milênios debatemos: livre-arbítrio existe ou não existe? Com a tecnologia e a hiperconexão do século 21, a resposta, ao menos em parte, ficou fácil. A cada fração de segundo essa máquina de rastros aprende mais sobre nós. E, assim, aprende a nos manipular melhor.
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