No momento em que o país acumula indicadores históricos de endividamento e inadimplência, cada vez mais, muitas pessoas enfrentam desafios com dívidas e estão encontrando dificuldades em cumprir com suas obrigações financeiras. Levantamento da Serasa aponta que, em 2026, 81,7 milhões de pessoas estavam com dívidas no Brasil. Além disso, a inadimplência (dívidas vencidas) cresceu 38% em 10 anos.
Essa situação preocupante acendeu o sinal amarelo no governo federal. Em ano eleitoral, o impacto negativo da alta do endividamento das pessoas e famílias tem prejudicado a popularidade do governo. O diagnóstico é de que o elevado comprometimento do orçamento doméstico com o pagamento de dívidas tem feito com que as famílias acabem o mês sem dinheiro e ainda com dívidas, situação que aumenta o mal-estar com o governo, neutralizando vários pontos positivos, como redução do desemprego, maior renda, inflação controlada, além da isenção de IR para quem recebe até R$ 5 mil e redução de quem ganha até R$ 7,5 mil.
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Diante dessa realidade, o governo federal lançou o novo programa de renegociação de dívidas – Desenrola 2.0. O objetivo é trazer alívio econômico aos brasileiros e diminuir os índices de endividamento, apontado como um dos maiores problemas atuais da economia do país. Com descontos de até 90%, o Desenrola 2.0 busca resolver o problema de milhões de brasileiros negativados e sem acesso a crédito, além de diminuir a inadimplência no sistema financeiro.
O Desenrola 2.0 possui quatro frentes, de acordo com o tipo diferente de dívida:
- Desenrola Famílias: dívidas com cartões de crédito, cheque especial e crédito pessoal de pessoas físicas com renda mensal de até R$ 8.105,00.
- Desenrola Empresas: ampliação de crédito e renegociação para MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte com até R$ 5 milhões de faturamento anual.
- Desenrola Fies: renegociação de contratos do Fundo de Financiamento Estudantil em atraso há mais de 90 dias, com desconto total de juros e multas e parcelamento em até 150 vezes; para estudantes com dívidas há mais de 360 dias, o abatimento pode chegar a 99% do valor total para inscritos no CadÚnico e a 77% para os demais estudantes.
- Desenrola Rural: regularização de dívidas de agricultores familiares, cooperativas da agricultura familiar, beneficiários da reforma agrária e indígenas e quilombolas com operações de crédito rural.
Com pressa para se livrar do endividamento, as pessoas vão sozinhas para essa espécie de mesa nacional de mediação dos débitos renegociar diretamente com os bancos. Podem ter múltiplos credores, vão receber várias propostas e vão ter que decidir qual a melhor saída. Então, a pergunta que não quer calar: em que momento essa pessoa foi preparada para isso? Elas tiveram educação financeira para tratar das dívidas? Como consequência, muitos consumidores, em iniciativas como o Desenrola, não sabem bem como avaliar as propostas recebidas e, pela urgência e, principalmente, ânsia em resolver o problema, cedem e aceitam renegociações nem sempre vantajosas.
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Independente se o Programa Desenrola Brasil é bom ou ruim, Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira e criador da DSOP Educação Financeira, propõe 4 passos aos endividados, antes de aderirem ao programa:
- 1) Diagnóstico: levantar os ganhos, os gastos, a forma como lida com a situação para estar ciente do que está assumindo; o pior acordo é aquele que não se consegue cumprir.
- 2) Dívidas vencidas e a vencer: relacionar os credores, os valores devidos, prazos, etc.
- 3) Envolvimento da Família: numa família, independente de ser provedor, todos os integrantes consomem e, portanto, gastam; então, é preciso negociar a redução, substituição ou eliminação de itens, visando a eliminação de dívidas.
- 4) Orçamento financeiro: abandonar a velha fórmula do “ganhos (-) gastos (=) sobra ou falta” pela inovadora fórmula da DSOP Educação Financeira: “ganhos (-) aposentadoria (-) sonhos (-) prestações (-) reserva estratégica (=) gastos;” o valor dos gastos passa a ser o padrão de vida pessoal ou familiar.
Ter dívidas, por si só, não é ruim; estar inadimplente, sim. As dívidas são compromissos assumidos para comprar produtos, contratar serviços e, muitas vexes, a única forma de adquirir bens de maior valor, como um carro ou imóvel, enfim, realizar sonhos e formar um patrimônio. O problema é que as pessoas não avaliam primeiro o orçamento para depois fazer a compra. A maioria dos inadimplentes se endivida por má organização financeira, falta de conhecimento e questões emocionais. Os cartões de crédito, oferecidos sem avaliações mais rigorosas da capacidade de pagamento dos usuários, são responsáveis por mais de 80% das dívidas de pessoas físicas, o que, entretanto, não faz deles os responsáveis pelo endividamento; os cartões são apenas ferramentas que requerem cuidados de uso.
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É claro que um programa dessa envergadura, como o Desenrola 2.0, gera dúvidas e, principalmente, avaliações positivas e negativas. Alguns especialistas reconhecem ser importante oferecer às pessoas e famílias uma oportunidade de reorganizar a vida financeira e sentir um alívio real. Já muitos veem a proposta do Desenrola 2.0 apenas como uma jogada política do governo para melhorar sua avaliação. Outros, como uma gambiarra porque não se sabe se o benefício no presente compensa os custos futuros. Mal comparando, seria como tomar um analgésico para aliviar uma dor, mas sem tratar a causa.
O fato é que a inadimplência elevada da maioria da população brasileira é um sinal claro de que precisa haver uma mudança na forma de lidar com o dinheiro. Não basta conseguir mais crédito ou aproveitar programas de liquidação de dívidas, sem haver uma mudança de comportamento. O aumento de quase 10 milhões de endividados, desde 2023, quando da realização do primeiro Desenrola, comprova isso. Como diz Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira e criador da DSOP Educação Financeira, “Quando planejar, priorizar e alinhar seus gastos aos seus objetivos de vida, a pessoa não apenas reduz dívidas, ela transforma sua relação com o futuro”. Essa transformação começa pela educação financeira que é uma ciência humana, fundamentada no comportamento e não apenas na utilização de técnicas, como pesquisar preços, fazer cálculos, ter um orçamento e usar planilhas ou apps.
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