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VALESCA DE ASSIS

Madrinhas

Foto: Arquivo Pessoal

Muito querida Isolde.

Recebemos com muito prazer tua correta cartinha. Desejamos que continues sempre querida de teus bons pais, professores e muito nossa também. Assim o mereces, porque és aplicada e caprichosa para com teus deveres. Com surpreza, tive a visita da Clarice (minha tia). Está uma moça muito bonita e vistosa.

Não a conheci logo a primeira vista. Mas quando deu seu nome, achei-a parecida com a mamãe.
Envio-lhe esta fazenda (tecido) para um vestido ou casaco que com certeza ficará pronto para vestires no dia de teu feliz aniversário.

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Terminando desejo perfeita saúde a todos os teus, aos quaes eu e teu padrinho enviamos. Aceita também beijos e saudosos abraços do padrinho e da madrinha que muito te estimam.

Izolina

Porto Alegre, 23 de Maio de 938.

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***

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Um dos maiores tesouros de minha mãe era a carta da madrinha Izolina, escrita há quase 90 anos. Tenho o original, como puderam ver na ilustração. Inúmeras vezes li e reli esta carta, mas só depois de ter estudado minhas origens, com suas especificidades culturais, pude avaliar que esse era um modo polido e aceitável de expressar amor e cuidado. Aquilo que eu achava frieza, eram os limites afetuosos de uma época e de uma cultura fechadas. Fácil, agora.

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Pedro e Izolina, os mesmos que foram padrinhos da minha mãe, foram meus padrinhos de batismo, também. Como estavam idosos e moravam longe, em Porto Alegre, não cheguei a conhecer a madrinha. O padrinho, viúvo, conheci aos 12 anos. Fui à loja dele, com minha tia Suely e ele me deu um corte de tecido para um vestido. Era, então, um velhinho que mal conseguia usar a trena de madeira para medir as fazendas.

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Então nunca tive, na prática, aquela madrinha que cuida quando os pais saem para um cinema, ou quando tens febre. A madrinha que ajuda a preparar a tua festa de aniversário, todos os anos, a que guarda os teus desenhos e faz tuas vontades possíveis. A que sabe de todas as comidas e doces de que gostas, e faz bolinhos de chuva, mesmo num dia de sol. Ter uma madrinha é a garantia de que existe alguém, fora da família, que tem o compromisso de cuidar de ti através do tempo.

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Na carta da madrinha Izolina, esse papel aparece de modo discreto e profundo: no tecido enviado para o aniversário, nos votos de saúde, nos abraços saudosos, nos conselhos, nos elogios moderados e, sobretudo, na permanência de uma carta que minha mãe guardou como um tesouro. E eu também.

Obrigada, sempre, por me lerem.

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