A aritmética dos gabinetes costuma ser uma ciência fascinante. Ela possui a rara propriedade de transformar planilhas em dogmas e contradições em vitórias administrativas. Quando o Ministério da Educação e o Inep divulgaram os dados do Ideb de 2025 no começo de agosto, os números aplicaram uma aula prática de lógica sobre a gestão pública de Três de Maio – e a lição não foi nada suave. O drama do município gaúcho, contudo, longe de ser um ponto fora da curva, é o retrato fiel de um vício que se espalha por todos os cantos do Brasil: a obsessão pelo fechamento de escolas do campo e a ilusão das soluções midiáticas urbanas.
No fim do ano passado, sob o pretexto da costumeira “otimização de custos”, baixou-se o teto sobre a tradicional Escola Municipal de Ensino Fundamental Martinho Lutero, em Entrada Barrinha. O fechamento beira o contrassenso poético e histórico. O patrono da escola foi, no século XVI, o pioneiro na defesa da escola pública, gratuita e universal mantida pelo Estado. Para Lutero, alfabetizar meninos e meninas de todas as classes sociais era um dever moral das autoridades seculares – tão urgente quanto construir pontes e estradas –, garantindo que o cidadão pudesse ler e pensar com autonomia. Ironias do destino: cinco séculos depois, o governante local atua no sentido oposto, trancando a porta do saber que o reformador ajudou a abrir.
O enredo ganha contornos de sátira quando confrontado com o próprio Ideb. Enquanto o martelo da desativação aposentava a Martinho Lutero – poucas semanas após seus alunos serem premiados por um trabalho de qualificação –, outra unidade rural do município insistiu em estragar a narrativa oficial. A Emef Bem Viver Caúna obteve a nota 7,5 nos anos iniciais do ensino fundamental, alcançando o topo absoluto de Três de Maio e superando com folga a média estadual e nacional.
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Na outra ponta da tabela repousa a reluzente Escola Cívico-Militar Caminhos Inovadores. Criada há poucos anos, erguida com aportes generosos e sob a pompa de ser a grande vitrine da qualificação moderna, a instituição amargou os menores índices no município: 5,6 nos anos iniciais e modestos 4,1 nos finais – ambos abaixo das médias da rede pública do Estado (6,3 e 5,4) e do País (6,1 e 5,0).
A lição que vem do campo é cristalina. Investem-se fortunas para encarcerar o ensino em modelos rígidos na área urbana, enquanto escolas rurais – que ensinam em harmonia com a terra e teriam capacidade de absorver o excedente de alunos da cidade – entregam excelência pedagógica com uma fração do orçamento.
Desativar uma estrutura comunitária com o potencial da Martinho Lutero para superlotar salas no centro não é apenas erro de cálculo; é miopia de gestão. O que se economiza em giz no interior gasta-se em óleo diesel para transportar crianças por estradas de chão rumo ao desempenho mediano.
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Três de Maio orgulha-se de sua força agrícola. Porém, ao fechar a escola que fixa o jovem ao seu chão, desrespeitar o legado de seu patrono e ostentar notas baixas onde mais gastou, a gestão pública demonstra que sua matemática precisa urgentemente de reforço escolar.
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