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BRIEFWECHSEL | CORRESPONDÊNCIA

Identidade musical ou só mais uma patrulha?

Querido Rafi,

O guri olhou a tela do meu celular com o perfil do Geist no Instagram e soltou aquela “ach das ist aber ein bissel Opa-Sachen”. Do alto da sua sabedoria ao estilo Fabio Junior, dos seus vinte e poucos anos, ele decidiu, após ver por três segundos as headlines contendo Ärzte, Toten Hosen e Max Giesinger, que preferia que a banda dele não tocasse no teu programa, depois de eu ter levantado essa ideia. Fiquei ali, com o celular na mão e um pensamento na cabeça, vibrando em duas frequências, uma bem baixa, nem preciso te dizer como, e outra mais racional. O pai da namorada dele, o Sergio, colega engenheiro e meu amigão há mais de trinta anos, ficou branco e tentou mudar de assunto. Mas eu, como músico metido, decidi apresentar um desafio e instiguei o neófito a discorrer mais sobre a temporalidade da música e de que forma isso o afetaria daqui a algumas décadas. O cara não comprou a peleia, levantou-se e pediu licença, dando a melhor desculpa de todas, que é a de tenho que ir porque minha namorada está me chamando. Essa senha de escape é internacional e atemporal, pelo jeito.

Treffer!

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Aquela interação me fez sentir mais velho que um dinossauro e era exatamente assim que o garoto nos olhava. Porém, depois de matutar um pouco, não é nada disso. O fato é que, e só me dei conta disso após trocar uma ideia com o meu camarada, jovens adultos ainda são, assim como os adolescentes, muito conectados ao que pensam seu círculo social e suas tribos… a ponto de não quererem servir de piada para nenhum dos seus pares, sejam amigos ou – principalmente – desafetos, ao ser associados com algo que lhes pareça estranho.

Nós também fomos bastante assim, lembra?

Nos anos 80, e talvez um pouco dos 90, havia uma polarização musical medonha. E uma patrulha ideologica correspondente. Se o cara escutasse Iron Maiden, não poderia jamais ser visto pela sua galera com um disco do The Cure, sob pena de sofrer admoestações diversas. E vice-versa. Concluo que isso ainda exista, talvez de formas diferentes.

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Eu tentei passar para as minha filhas Petra e Clara um senso de estar abertas e conhecer diversos estilos musicais; de entender a música como uma arte sublime. E deu certo, elas não só amam a música como são muito ecléticas e conhecem bem várias vertentes. E nós, que também crescemos em uma família em que a música era a rainha da sala, e não a novela, soubemos expandir nossos ouvidos em várias direções. E a ser exigentes, não esquecendo que o silêncio periódico também é importante.

Seja da exposição constante à Blasmusik, nas vezes dos encontros familiares na casa do tio Ruizinho em Canasvieiras, ou Beethoven e Mozart no carro com o pai, seja pela MPB de altíssima qualidade em casa com a mãe e, mais tarde, rock com os amigos, fato é que nasceu essa nossa musicalidade, que aprecia o que é bom. Mas, claro… o que pode ser definido como bom para uns, não é para outros. E tudo bem. Só não vale querer impor um gosto musical pela força do volume da caxa JBL, como ocorre infelizmente muito aí no Brasil.

O pai dizia, o melhor botão da TV é o que a desliga. Eu complemento: às vezes o botão que traz o silêncio total é o mais apropriado, seja qual for o aparelho. Mas quando o rádio está tocando o programa Geist, aumenta o volume e deixa rolar!

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Abração und bis nächste Woche!

– Armando

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