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JANE BERWANGER

Dados apontam: trabalhadores rurais estão sofrendo de depressão

Foto: Divulgação

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Nos últimos meses, um dado preocupante sobre a realidade do campo ganhou espaço na mídia brasileira. Levantamento divulgado na mídia nacional apontou que a depressão atinge 36 em cada cem trabalhadores rurais no Brasil, enquanto a estimativa apresentada para a população em geral é de 15%. O estudo também indica que milhões de pessoas que trabalham no campo enfrentam algum problema relacionado à saúde mental.

É um dado que merece atenção não apenas do ponto de vista da saúde pública. Para quem estuda há tantos anos a Previdência Rural, ele também provoca uma reflexão importante sobre as condições em que essas pessoas trabalham e envelhecem.

A atividade rural tem características muito particulares. O agricultor pode fazer tudo certo e, ainda assim, perder parte importante da produção. Uma estiagem prolongada, chuva no momento errado, granizo, enchente, geada ou uma mudança brusca no mercado podem comprometer meses de trabalho e investimento.

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Há ainda jornadas extensas, esforço físico, exposição ao sol, produtos químicos, máquinas e outros riscos inerentes à atividade. Em muitas propriedades, especialmente na agricultura familiar, trabalho, renda e patrimônio estão profundamente ligados. Quando uma safra vai mal, não é apenas o resultado de uma empresa que está em jogo. É muitas vezes a renda e a própria subsistência da família.

Pesquisas realizadas com agricultores brasileiros já identificaram associação entre perda de produção e maior ocorrência de transtornos mentais comuns. Outros estudos relacionam sintomas de depressão a fatores ocupacionais e socioeconômicos presentes no meio rural.

Tudo isso ajuda a compreender por que precisamos olhar para o trabalhador rural de maneira integral.

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Quando o adoecimento compromete a capacidade de trabalho, a Previdência Social passa a exercer uma de suas funções mais importantes: proteger o segurado diante de situações em que ele já não consegue exercer normalmente sua atividade.

O trabalhador rural também pode acessar benefícios por incapacidade quando presentes os requisitos legais. O problema é que, na prática, ainda existem desafios importantes para que essa proteção alcance quem realmente precisa.

No caso de transtornos mentais, por exemplo, nem sempre a incapacidade é visível. Diferentemente de uma fratura ou de determinadas limitações físicas, o sofrimento psíquico exige uma análise cuidadosa de documentos médicos, do quadro clínico e, principalmente, das repercussões da doença sobre a atividade efetivamente desempenhada. Isso é particularmente relevante no campo.

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Não basta olhar apenas para o diagnóstico. É preciso compreender o trabalho realizado por aquela pessoa. A rotina de quem planta, colhe, cuida dos animais, opera máquinas ou depende diariamente da própria força de trabalho tem exigências específicas.

Para o segurado especial, existe ainda outra particularidade: a necessidade de comprovar o exercício da atividade rural e sua condição previdenciária. Em momentos de doença, uma documentação rural organizada pode ser tão importante quanto a documentação médica adequada para a análise do benefício.

A Previdência Rural nasceu justamente do reconhecimento de que o campo possui uma realidade própria. Por isso, a legislação estabelece regras específicas para esses trabalhadores, inclusive na aposentadoria por idade rural, atualmente aos 60 anos para homens e 55 para mulheres, mediante o cumprimento dos demais requisitos.

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Essas diferenças não são privilégios. Elas refletem uma escolha histórica de proteção social diante das características do trabalho rural.

Quando surgem dados tão preocupantes sobre a saúde mental de quem vive da terra, precisamos ampliar essa discussão.

O trabalhador rural não enfrenta apenas o desgaste físico de uma atividade árdua. Carrega também a incerteza de uma profissão em que meses de esforço podem depender de algo sobre o qual ele não possui qualquer controle: o tempo.

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Reconhecer essa realidade é essencial para pensar saúde, políticas públicas e também Previdência Social.

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