Há décadas venho acompanhando a diminuição de árvores em Torres. Nas praças, na orla da prainha, nas ruas. Árvores, figueiras centenárias, foram abatidas sem dó nem piedade. Desta vez não encontrei mais a frondosa figueira ao lado do Banco do Brasil. Apreciava passar por lá ao entardecer, ouvir a cantoria de dezenas de andorinhas voltando para o repouso noturno naquela árvore. Contaram-me que os passarinhos ficaram por dias em revoada ansiosa em torno do lugar da árvore, sem mais a encontrar; mãos humanas haviam destruído seu lar. E isso em tempo de prepararem ninhos para novas vidas.
Torres é apenas um exemplo do que acontece em muitos outros lugares. Tanto em cidades quanto no interior. Terra degradada pelo uso de venenos que destroem a diversidade de vidas. Basta observar nossas cercanias. Riachinhos poluídos, terra envenenada, árvores eliminadas; crescente invasão urbana no lar de animais silvestres. Cada bosque derrubado é assalto ao seu refúgio. A ocupação de espaços naturais, sem consideração para com as vidas que neles habitam, é crime contra a vida e a diversidade biológica.
O mundo precisa de humanos sensíveis, capazes de compreender e reverenciar a terra, as árvores, as florestas, as águas, as flores, os animais e sua própria existência.
Publicidade
Cuidar da vida significa também cuidar dos centros urbanos. O domínio crescente de asfalto e concreto, sem uma crescente arborização, é preocupante. Para muitos, quanto mais altos os prédios, quanto mais ruas asfaltadas, mais progressista concebem a cidade. No dicionário leio que progresso significa “um movimento para a frente, um avanço, desenvolvimento ou melhoria em direção a um estado considerado superior”.
Que estado superior da evolução humana é este que degrada a terra, que elimina crescentemente a natureza e a diversidade de vidas que têm o mesmo direito de habitar nela que nós humanos temos? José A. Wenzel em “Alcantilado sul”, publicado na Gazeta do Sul em 29/08, alerta para o “paradigma civilizador degradador” que trilhamos e concebemos como progresso. A propósito, o escritor nos lembra que não existe evolução humana sem coexistencialidade: “Só existimos porque coexistimos: sem o ar e o sol, a água e a terra, as plantas e os animais, sem outro humano, inexistimos.”
Precisamos entender que tudo isso precisa continuar coexistindo conosco, harmoniosamente. Por conseguinte, precisamos ampliar a quantidade de árvores, de flores, frutos; cultivar um habitat em que outras vidas possam se integrar a nossa: abelhas, aves, animais. Tanto quanto possível, promover a diversidade, criando pequenos santuários naturais. Reforço com as palavras da escritora Dulce M. Boettcher em seu texto: “Que nunca chegue uma primavera silenciosa”, publicado pela Gazeta do Sul em 26/08: “precisamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para preservar essa delicada teia de vida que nos foi confiada.”
Publicidade
Isso me remete ao pensamento do precursor do movimento pela preservação ambiental, filósofo e médico Albert Schweitzer: „Ich bin Leben, das leben will, inmitten von Leben, das leben will”- “Eu sou vida que quer viver, em meio à vida que quer viver.” Cultivemos profundo respeito para com todas as vidas, aprendamos a ouvi-las, sintamos o amor nelas contido. O poeta Rainer Maria Rilke, da literatura alemã, expressa divinamente esta reverência: Verstehst du, was die Bäume säuseln:
“Verstehst du, was die Bäume säuseln
dort droben in der Wipfel Höh?
Verstehst du auch der Vöglein Weise
am Lenzesmorgen – zart und traut,
verstehst du, was der Quell dir leise
mit seinem Murmeln anvertraut?
Verstehst du auch den Strahl der Sonne,
bricht er durch Wolken grau und trüb? –
Er ist ein Gruß – ein Gruß voll Wonne,
ein süßer Gruß – vom fernen Lieb!”Tu compreendes o que as árvores sussurram?
Na ramagem lá no alto da copa?
Tu também compreendes a maneira terna e confiante do passarinho,
na manhã primaveril?
Tu compreendes o que os murmúrios da fonte silenciosamente te confiam?
Tu também compreendes o raio de sol, quando rompe por entre nuvens cinzentas e sombrias? É uma saudação – uma saudação repleta de júbilo, uma doce saudação – do amor distante! (Rainer Maria Rilke)Publicidade
Quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no nosso novo canal do WhatsApp clicando aqui. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!