“Você ri da minha roupa. Você ri do meu cabelo. Você ri da minha pele”, bradou Sandra de Sá na música Olhos Coloridos, como o grito ecoando a voz de uma gente acostumada a ser motivo de gozação, de ataques, de bullying e atitudes racistas. Os pretos, os indígenas e todos, visivelmente diferentes, são vítimas do preconceito. E quem falar que isso não existe está querendo se enganar, e isso é um tipo de inocência perigosa; ou enganar seus interlocutores, o que revela uma malandragem cruel.
Basta acompanhar os jogos de uma rodada do Campeonato Brasileiro, ou de competições semelhantes em outros países, que você verá atitudes bizarras de homens imitando macacos. São atitudes tão ridículas e repetitivas que podem servir de confirmação de que os primatas que jogam fezes nos outros têm maior cognição sobre a vida do que esses seres (des)humanos. São a vergonha da sociedade e deveriam pagar pelo que fazem, mas a lei é apresentada como brava e punitiva quando, na verdade, é branda e complacente.
Diante de tudo isso, ciente de que o racismo é presente e que as pessoas pretas sofrem no dia a dia com as ações e reações de seres retrógrados, fica ainda mais difícil entender por que o streamer GH atacou, de forma tão ignorante, o ator João Victor Gonçalves, que interpreta o personagem Mau Mau na novela Quem Ama Cuida, da TV Globo. A história viralizou nas redes sociais, mas caso ainda não tenham visto, GH e amigos foram para cima do jovem artista, assumidamente gay, fazendo piadas com a roupa e praticando homofobia.
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João Victor estava com uma calça vermelha, semelhante à usada pelo personagem Aladim. Se me perguntarem a opinião sobre a vestimenta, admitirei que achei feia, bem feia, na verdade, mas nada justifica o tipo de ataque sofrido pelo menino enquanto caminhava em uma área escura a caminho do Rock in Rio. E mais, ele colocou a roupa para se sentir bem e, acredito, estava assim até o grupo de GH chegar e fazê-lo apertar o passo na tentativa de escapar do esculacho.
Gays e travestis são mortos ou espancados a todo momento, simplesmente por sua orientação sexual. Ver um grupo de rapazes gritando e lhe dizendo barbaridades, em um local ermo, pode significar uma provocação – e isso já é desnecessário e chato –, mas também pode ser o último som que ouvirá enquanto apanha até a morte.
A polícia investigará o caso, o assunto virou polêmica nacional; João Victor recebeu uma enxurrada de mensagens de apoio, porque não era sobre a feia calça vermelha; era tudo sobre o jeito do jovem que a usou, sobre a forma como estava produzido, sobre o caminhar leve e a aparência indefesa. O ator chega em casa e pensa, como em Indestrutível, de Pabllo Vittar: “Eu sei que tudo vai ficar bem; e as minhas lágrimas vão secar; eu sei que tudo vai ficar bem; e essas feridas vão se curar”.
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