“Mais um dia que começa nessa nossa vida de quengas”, dizia Caetana de Sousa, a famosa dona do bordel na novela O Outro Lado do Paraíso, exibida pela TV Globo. Ela é uma dentre tantas outras mulheres que passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de brasileiros. Virou um ser icônico por suas frases e a forma como atuava neste mundo, vivendo à margem da sociedade pelo preconceito. E mais do que representatividade, a personagem evidenciou a versatilidade da atriz Laura Cardoso.
Ela viveu um tempo em que atuar em cinema, teatro ou televisão era atividade atribuída às quengas, como referência ao meretrício. Claro que esse conceito tinha como única justificativa o fato de que as mulheres que se atreviam a desafiar os familiares e entrar nessa carreira tinham personalidade, força, não costumavam se dobrar para uma sociedade patriarcal. Venceram as barreiras que limitaram as mulheres por tanto tempo e, depois, deram vozes a muitas outras. Só para ter uma ideia, na televisão, Laura passou a atuar em 1950, quando a TV chegou ao Brasil.
Laurinda de nascimento foi Leonor, Maria, Magda, chegou a ser de Condessa L’amour a Tereza da Esquina. Foi filha, irmã, esposa, cunhada e mãe das gêmeas mais polêmicas da história da dramaturgia: Rute e Raquel, em Mulheres de Areia. Com todas elas, dando eco a cada brasileira, construiu uma carreira consolidada, com respeito dos colegas e merecedora do reconhecimento nacional. Na última semana, teve seu ato derradeiro, despediu-se com a maior guerreira entre suas personagens: a Laura Cardoso.
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A semana também marcou a partida de outro ícone da dramaturgia nacional: Glória Menezes. Assim como Laura, a gaúcha deu voz para muitas mulheres. Foram mocinhas ou vilãs, foram Amálias, Irenes, Pérolas. Mexeu com a ira dos brasileiros com a Laurinha Figueroa, em Rainha da Sucata, ao mesmo tempo em que mostrou versatilidade com as três personalidades em Irmãos Coragem: Lara, Diana e Márcia. E toda vez que se ouvia o paso doble do maestro Lyrio Panicali e sua orquestra, já se sabia que vinha novidade de Rosa Malena ou Simone, na novela Rosa Rebelde, de 1969.
Formou par romântico de novela e de vida com Tarcísio Meira. Fez parte de um tempo em que só o talento possibilitava alcançar o estrelato, bem diferente do período atual em que dançar na frente do celular, mesmo que de forma desengonçada, pode significar o título “influenciador” e, por consequência, ingressar nos meios tradicionais, como a televisão, como referência artística.
Laura e Glória devem ter morrido tantas vezes em novelas, séries, peças teatrais ou filmes e, a cada partida, vinha consagração ainda maior. São mulheres que souberam viver a ponto de interpretar uma boa morte. E quando não foi a personagem que se despediu? E quando as fontes de tantas mulheres esgotaram-se, chega o momento em que o “pescador quando tece sua rede; jogador quando joga a sua sorte; cada um que conhece sua sede; é artista da vida ou da morte”, como cantou Gal Costa.
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