A competitividade, a atração de investimentos e o aumento do valor agregado à produção são discussões recorrentes no Rio Grande do Sul e, nesse contexto, a energia desempenha um papel crucial. O gás natural, frequentemente visto como um tema restrito a especialistas, merece um destaque mais significativo na agenda econômica estadual, pois pode ampliar as opções de abastecimento e abrir novas oportunidades para a indústria, a agroindústria e os serviços.
De acordo com o Balanço Energético do Estado, publicado pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura, em 2024, o gás natural representou apenas 4,2% da oferta interna de energia no Rio Grande do Sul. Embora esse número isoladamente não justifique um aumento no consumo, ele sublinha a importância de explorar onde o gás pode se inserir com vantagens econômicas e ambientais.
As aplicações do gás são diversas, abrangendo setores como alimentos e bebidas, papel e celulose, química e metalurgia. O gás pode fornecer calor para processos industriais, produzir vapor e permitir a geração conjunta de eletricidade e calor. Também pode atender estabelecimentos comerciais, residências e determinadas operações de transporte. Cada aplicação, entretanto, exige uma conta própria. Uma alternativa atraente para uma fábrica pode não ser a melhor para outra. Para o consumidor, o custo total, incluindo entrega, adaptação de equipamentos e segurança de abastecimento, é crucial.
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O grande desafio é conectar essas oportunidades às fontes de suprimento disponíveis. Parte da demanda depende da ampliação das redes; parte pode ser atendida por outras soluções logísticas. Forma-se, contudo, um impasse conhecido: sem consumidores comprometidos, a infraestrutura não avança; sem infraestrutura, os consumidores não se comprometem. Repetir o diagnóstico é mais fácil do que coordenar as decisões necessárias para superá-lo.
A diversificação da oferta é essencial. O acesso à produção nacional, a integração com a Argentina e o gás natural liquefeito podem ampliar as alternativas de abastecimento. Mas gás disponível em um campo produtor não significa gás competitivo na porta de uma indústria. Transporte, capacidade de entrega, contratos e regularidade precisam fazer parte da mesma avaliação. Proximidade geográfica é uma vantagem; não é um contrato de fornecimento.
O biometano se destaca como uma oportunidade especialmente relevante para o Estado. Resíduos agropecuários e agroindustriais podem dar origem a combustível renovável, aproximando produção energética e consumo. Essa possibilidade permite ao agronegócio ocupar duas posições: usuário e fornecedor de energia. Também pode favorecer o aproveitamento de resíduos, a geração de renda e a formação de mercados no interior.
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O potencial, porém, precisa ser organizado. Coleta de matéria-prima, escala, purificação, qualidade do gás e logística determinam a viabilidade. Nem todo resíduo é uma receita à espera de reconhecimento. Projetos consistentes exigem compromissos entre produtores, operadores e consumidores, além de controle ambiental durante toda a operação.
Além disso, é necessário tratar a transição energética com rigor. O gás natural permanece um combustível fóssil. Sua utilização pode trazer benefícios quando substitui fontes mais intensivas em emissões, mas o resultado depende da eficiência e do controle de perdas de metano. Em determinadas aplicações, eletrificação ou biomassa poderão ser superiores. A boa política energética compara alternativas; não escolhe antecipadamente o vencedor.
Regulação e investimento devem servir à formação desse mercado. Regras claras, acesso à infraestrutura e transparência tarifária favorecem decisões de longo prazo. A expansão da rede pode diluir custos quando acompanhada de consumo suficiente, mas pode elevá-los se os investimentos não encontrarem demanda. Construir mais quilômetros não equivale, necessariamente, a entregar energia mais competitiva.
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O Estado precisa, portanto, identificar consumidores potenciais, comparar fontes e organizar projetos que conectem oferta e demanda. Indústria, agroindústria, empresas de energia, governos e reguladores têm responsabilidades distintas, mas complementares. A cooperação deve produzir contratos, conexões e abastecimento, e não apenas uma sucessão de anúncios.
Ampliar a participação do gás na matriz gaúcha deve ser consequência de sua capacidade de gerar valor. O objetivo final é oferecer mais opções, apoiar a atividade produtiva e fortalecer a segurança energética. O Rio Grande do Sul dispõe de oportunidades para avançar; agora é hora de transformar esse potencial em um mercado dinâmico e competitivo.
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