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Copenhague, Dinamarca: um ciclo que se fecha (Final)

Foto: Arquivo Pessoal

De volta a Copenhague, 25 anos depois, com meus pais: juntos, caminhamos pela cidade em que morei quando jovem

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.”
– Søren Kierkegaard

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Em Copenhague, no caminho do trabalho para casa, eu passava diariamente pelo Ristorante Frascati. Invariavelmente, eu olhava para o cardápio exposto na porta e para as fotos dos belos pratos ali servidos. Via também os preços, exorbitantes para um estagiário latino-americano com o objetivo de juntar algum dinheiro para viajar pelo restante da Europa no início dos anos 1990.

Entre a herança viking, as histórias mágicas de Hans Christian Andersen (A Pequena Sereia, o Patinho Feio, A Roupa Nova do Rei) e os pequenos blocos de Lego, Copenhague é uma cidade que conquista não somente pela arquitetura e pela história, mas principalmente pelo ambiente harmonioso e de integração humana que faz dela uma das cidades mais habitáveis e felizes do mundo.

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A preocupação em criar uma cidade para as pessoas não é recente. No coração da capital, o Tivoli, inaugurado em 1843, é um dos parques de diversões mais antigos ainda em funcionamento e chegou a servir de inspiração a Walt Disney. A poucos metros dali, junto à Prefeitura, começa Strøget, uma das mais antigas e extensas ruas comerciais exclusivamente para pedestres da Europa. Com mais de um quilômetro, foi criada no início dos anos 1960 e o conceito serviu de inspiração para os calçadões espalhados pelo planeta.

A cidade, aliás, é um terror para motoristas, tamanha a prioridade dada aos ciclistas e pedestres. Mais da metade dos habitantes utiliza regularmente a bicicleta para se deslocar pela cidade.

Talvez o que mais me impressionasse fosse a maneira como aquela sociedade parecia ter amadurecido sem envelhecer: preservava sua história enquanto continuava a experimentar novas formas de viver.

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Fotos: Arquivo pessoal

Essa abertura à experimentação também deixou suas marcas na capital. A região do centro da cidade conhecida como Christiania é uma espécie de ilha urbana semianarquista criada em 1971. O local tem suas próprias regras, ou ausência delas, tolerando práticas por vezes pouco ortodoxas. Em outro exemplo de vanguarda sociopolítica dinamarquesa, em 1º de outubro de 1989, Axel e Eigil Axgil tornaram-se, na Prefeitura de Copenhague, o primeiro casal do mundo a formalizar uma parceria registrada entre pessoas do mesmo sexo. A iniciativa dinamarquesa tornou-se um marco na história do reconhecimento legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

A Segunda Guerra não poupou o país. Ocupada pela Alemanha nazista em 1940, a Dinamarca viveu uma resistência que assumiu diferentes formas e foi marcada por um oceano de solidariedade entre os dinamarqueses. Em um episódio até hoje celebrado, mais de 7 mil judeus foram transportados clandestinamente até a neutra Suécia em barcos de pesca e pequenas embarcações privadas. A própria monarquia local, que já tem mais de mil anos de história, foi um símbolo de resistência. Sem guarda-costas, o rei Christian X cavalgava diariamente pelas ruas da Copenhague ocupada pelos alemães, em uma mensagem silenciosa ao povo de que o país não se curvaria à barbárie nazista.

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Cerca de 25 anos depois de ter morado na capital dinamarquesa, levei meus pais para conhecerem a cidade. No bairro onde eu morava, mostrei a eles o restaurante e contei que jamais havia entrado ali, apesar da tentação diária. Foi então que minha mãe disse: “Então já sabemos onde vamos almoçar hoje!”

Pensei nisso ao colocar na epígrafe deste texto uma frase do filósofo, teólogo e poeta dinamarquês Kierkegaard (1813-1855), considerado o pai do existencialismo. Ao me sentar com meu pai e minha mãe naquele que, para mim, era um mítico restaurante, veio à tona uma jornada de esforço, dificuldades, realizações e incertezas. Senti que um ciclo se completava. Muito além da gastronomia adiada, realizava-se um sonho nutrido por um quarto de século: estar na melhor companhia na cidade em que iniciei minha vida longe de casa. 

Caminhando com meus pais pelas ruas de Copenhague, olhei para trás e tive a certeza de que andava conosco um jovem de 19 anos, que também sorria feliz.

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