Manhã do quarto sábado deste mês de agosto. Peço licença para a própria natureza. Acolhedora, ela aponta trilhas ao sul do Monte Verde. Aqui e ali, por entre as frestas das centenárias árvores, ilumina-se, lá adiante, o Bairro Arroio Grande e seu entorno. Impossível não se extasiar com a beleza natural da região.
Beleza e sustentação: as robustas raízes e troncos de figueiras e de outras espécies arrimam enormes blocos de basalto. Beleza e diversidade: em primorosa sintonia convivem plantas, animais, rochas, córregos, serapilheiras e dosséis, sutilezas e evidências. Beleza e águas: da altitude de 200 metros para os menos de 100 metros junto ao Arroio das Pedras, marulham brincantes águas, que ora se precipitam em corredeiras, ora descansam graciosamente permitindo as sedimentações de rochas erodidas e da nutridora matéria orgânica. Beleza e abrigo: as tocas, discretamente perceptíveis, suscitam coexistências arriscas. Beleza e ancestralidade: mais à jusante, muros de pedras juntadas testemunham passagens pretéritas. Beleza e brevidade: ao escorregar no tapete de escorrida lama multicolor se desprende a sola do tênis do pé direito ao tempo em que se acentua a dor no calcanhar de Aquiles de um corpo de 74 anos de idade.
Beleza e bem-estar: como é bom respirar o ar da mata oxigenante, partilhado por tantas outras criaturas. Beleza e saúde mental: o cenário desnivelado, encurvado, labiríntico, não padronizado, repleto de nichos e mistérios convoca para libertadores psicodesvendamentos. Beleza e coexistencialidade: só existimos porque coexistimos; sem o ar e o sol, a água e a terra, a planta e o animal, sem o outro humano inexistimos. Beleza e integralidade: as feições múltiplas assumem propósito sinérgico de interações percebidas e sequer imaginadas. Beleza comprometida: os sinais e as evidências atestam preocupantes processos desintegradores. Beleza e resiliência inquieta: frente aos nossos descuidos, até quando a natureza conseguirá nos brindar, generosamente, com suas conexões?
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Se tantas as belezas, descritas ou apenas sensibilizadas, o percurso se pluraliza em processo transformatório de distanciamento da imagem comprimida da individualidade. O “eu” se amplia no “nós” em potente processo de discernimento expondo a lacuna existencial, interposta entre a trajetória em curso e a de fato almejada. Lacuna que oportuniza nos repensarmos em tempo hábil e situar um dos pilares da trajetória destrutiva da humanidade: o comportamento convencional, inserido num paradigma civilizatório degradador, onde até as “mudanças”, não raramente, pouco ou nada transformam. Todavia, ao exercitar o “ver” para os lados e não apenas para trás ou para frente; ao compreender a natureza como “valor em si” e não como recurso, nos oportunizamos conectivos despertares.
Beleza e eternidade: olhos que se inundam com o Cinturão Verde, de sul a norte, de suas planícies aos alcantilados, jamais deixarão de sonhar com sua permanência.
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