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JULGAMENTO

Esposa de sócio da boate diz que marido não liberou fogos

Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, chorou durante o depoimento da esposa, Nathália Daronch, que o defendeu | Juliano Verardi/TJ-RS

O sexto dia do maior julgamento da história do Rio Grande do Sul foi marcado pelo depoimento de vítimas e de testemunhas próximas aos réus acusados de terem causado a tragédia da Boate Kiss, na madrugada de 27 de janeiro de 2013. Uma delas foi a esposa de Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, um dos sócios da boate. Nathália Daronch, de 31 anos, estava grávida de quatro meses quando houve o incêndio na casa noturna – e encontrava-se lá quando o fogo começou.

Em seu depoimento, Nathália relatou que Kiko foi avisado por um dos seguranças de que havia acontecido “uma coisa muito séria”. Segundo ela, o esposo abriu as portas e gritou: “Saiam, saiam”. Nathália saiu junto com as pessoas e foi até a calçada do supermercado Carrefour, do outro lado da rua. “Quando eu me virei, vi que não se tratava de uma briga.”

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Em relação à reforma na boate, contou que o uso da espuma teria sido indicado por um engenheiro. “Eu me recordo que foi uma indicação, ele estava amparado por uma indicação, do engenheiro Samir, que inclusive vendia essa espuma.” Segundo Nathália, há nota fiscal e troca de e-mails que confirmam sua afirmação.

A expectativa era receber, naquela noite, de 800 a 850 pessoas na boate. Nathália garantiu que não teria havido autorização prévia para usar fogos no show. “Eu estava lá na passagem de som. Tudo o que aconteceria no show é feito ali. E não foi solicitado isso (os fogos de artifício). E, se tivessem solicitado, não seria autorizado. Sei disso porque conheço a postura dele (Kiko). Ele acha desnecessário o uso desses artefatos em show.”

Hoje, Nathália e Elissandro são pais de duas meninas, de 8 e 5 anos. Ela disse que, antes de ir para o hotel (jurados, vítimas e testemunhas ficam confinados), as meninas teriam pedido: “Mãe, traz de volta o pai para casa”. “E eu não sabia responder”, disse a esposa do réu. “O pai vai passar o Natal com a gente? Eu disse: eu não sei.” Kiko chorou em certas partes do depoimento da esposa.

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Willian Renato Machado, sobrinho de Kiko: fogos no chão do palco | Juliano Verardi/TJ-RS

Além de Nathália, também prestou depoimento Willian Renato Machado, de 27 anos, que é sobrinho do réu Elissandro Spohr e trabalhava à tarde para a boate, auxiliando na divulgação dos eventos e recebendo as listas de aniversários que seriam comemorados lá. Ele estava na festa quando houve o incêndio e foi arrolado pela defesa do tio para ser uma das vítimas ouvidas em plenário.

O jovem relatou que chegou por volta de meia-noite e meia na Kiss, quando ainda tocava a primeira banda, Pimenta e seus Comparsas. Ficou na área VIP, em uma mesa. Já na apresentação da Banda Gurizada Fandangueira, os fogos de artifício foram utilizados na segunda música (Amor de Chocolate, do cantor Naldo). Os artefatos estavam no chão do palco.

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Márcio André de Jesus dos Santos foi outro que depôs. Ele é irmão de Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da Banda Gurizada Fandangueira. Segundo Márcio, o grupo já havia tocado na Boate Kiss utilizando artefatos pirotécnicos. Ele também disse que o uso de pirotecnia era de conhecimento do sócio da Kiss, Kiko. “Meu irmão e o Luciano (o produtor musical) não quiseram matar ninguém. Se eu disser para os pais que eu entendo a dor deles, estou mentindo. Eu entendo a nossa dor”, afirmou.

Márcio André de Jesus dos Santos, irmão do cantor: “Essa é nossa dor” | Juliano Verardi/TJ-RS

“Tenho um filho de 9 anos e nunca cantamos parabéns para ele. Não comemoramos mais o aniversário da nossa finada mãe. Se fizer um almoço lá em casa, tem que ser em silêncio. Porque as pessoas dizem: ‘Olha lá, os caras da Kiss comemorando’. Essa é a nossa dor”, ressaltou Márcio.

Segundo ele, Danilo (o gaiteiro da banda, que faleceu no incêndio) era o líder do grupo e quem fazia as negociações. Luciano era o roadie e quem cuidava dos efeitos especiais. “É um cara de bom coração, pró-ativo, que não esperava as coisas acontecerem.” Fazia sete meses que o produtor estava com a banda.

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O empresário Stenio Rodrigues Fernandes, de 30 anos, também falou em plenário. Ele fazia promoção e venda de ingressos para as festas universitárias, inclusive a “Agromerados”, realizada em 27 de janeiro de 2013, quando houve o incêndio na casa noturna. “A Kiss tinha a melhor estrutura da cidade, era a mais bonita.”

O ex-promoter lembrou que assistiu, uma semana antes, a uma apresentação da Banda Gurizada Fandangueira em um pavilhão do Centro de Eventos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com uso de pirotecnia. Na ocasião, viu faíscas saindo do artefato, o que incomodou a ele e pessoas que estavam próximas, as quais se afastaram. Stenio não comunicou o fato aos organizadores do evento.

Até o final dessa segunda-feira, já haviam sido realizadas 20 oitivas, restando outras oito, para depois começarem os depoimentos dos quatro réus.

Stenio Fernandes disse que viu pirotecnia em outro show da banda | Juliano Verardi/TJ-RS

O maior júri do RS

Com 20 pessoas ouvidas em seis dias, o julgamento do Caso Kiss já é considerado o mais longo da história do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul, ultrapassando o júri do caso do menino Bernardo, ocorrido na Comarca de Três Passos, em 2018. Na ocasião, o julgamento dos quatro réus (o pai da criança, a madrasta, uma amiga dela e o irmão) durou cinco dias (mais de 50 horas).

No júri da Kiss, os empresários e sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann; o vocalista da Banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos; e o produtor musical Luciano Bonilha Leão respondem por homicídio simples (242 vezes consumado, pelo número de mortes, e 636 vezes tentado, pelo número de feridos).

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