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JULGAMENTO

Ex-comandante dos Bombeiros de Santa Cruz presta depoimento

Coronel Gerson Pereira disse que foi proibido de realizar evento em Santa Cruz: “Querem que eu me cale” | Fotos: Juliano Verardi/Imprensa TJ-RS

Vestindo a farda de bombeiro, o atual diretor do Departamento Administrativo da corporação no Estado, coronel Gerson da Rosa Pereira, de 56 anos, depôs nessa terça-feira, 7, no sétimo dia do maior julgamento da história do Rio Grande do Sul. Ele era chefe do Estado-Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros de Santa Maria na época do incêndio na Boate Kiss, ocorrido em 27 de janeiro de 2013, que deixou 242 mortos e 636 feridos.

Pereira foi condenado, em 1º de setembro de 2015, por fraude processual, em uma ação decorrente do caso Kiss. Segundo o Ministério Público, ele enviou à polícia documentos que não faziam parte do plano de prevenção contra incêndio da boate. A pena de seis meses de prisão foi convertida em prestação de serviços à comunidade. Por mais de dois anos, entre setembro de 2017 e outubro de 2019, Gerson foi o comandante do 6º Batalhão de Bombeiros Militares de Santa Cruz do Sul.

Em 5 de janeiro de 2019, ele falou à imprensa sobre o caso pela primeira vez, em entrevista à Rádio Gazeta e à Gazeta do Sul. Além de mencionar detalhes sobre a madrugada de terror em Santa Maria, afirmou que a condenação imposta à corporação, antes de qualquer outro responsável, aconteceu em resposta ao desespero das famílias. “Alguém tinha que ser condenado, porque essa quantidade de vidas perdidas não tem que passar despercebida”, disse ele, na oportunidade.

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Nessa terça, no plenário do Foro Central I, em Porto Alegre, citou Santa Cruz após um dos questionamentos. “Sou silenciado por anos. Fui promover um evento em Santa Cruz do Sul, quis trazer as pessoas que atuaram no cenário para falar sobre parte técnica, convidar representantes dos pais, gente da Base Aérea. Estava tudo organizado e fui proibido de promover o evento”, relatou. “A Unisc ia sediar sem custo nenhum para o Estado, para tentar trazer uma experiência melhor. Querem que eu me cale. Isso é só um desabafo”, continuou ele, até ser interrompido pelo juiz Orlando Faccini Neto.

“Falando muito respeitosamente, coloque-se no seu lugar”, ordenou o juiz. “O senhor é testemunha e o banco de testemunhas não é um palanque.”

Já em outra fala, o coronel disse que ainda se comove pelos pais das vítimas. “Choro todos os dias por eles”, afirmou. Pereira também teceu duras críticas ao delegado regional de Santa Maria, Marcelo Arigony, que foi o responsável pela investigação do caso e o indiciou.

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“Esse delegado de polícia atirou minha dignidade no saco. Fiquei 25 anos lutando pela instituição, me dedicando pelo serviço público. Eu tenho honra, e isso foi jogado no lixo, por um erro do sistema”, disse ele. Segundo Gerson, a Boate Kiss estava com alvará vencido, mas em condições de funcionamento, com extintores e sinalizações luminosas. Revelou que a quantidade máxima de pessoas no local deveria ser de 691 pessoas.

No júri, os empresários e sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, o Kiko, e Mauro Londero Hoffmann; o vocalista da Banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos; e o produtor musical Luciano Bonilha Leão respondem à acusação de homicídio simples 242 vezes consumado (pelo número de mortes) e 636 tentado (por conta dos feridos).

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“Errei ao bloquear o som”, diz, chorando, o sonorizador da banda

Ainda pela manhã, Venâncio da Silva Anschau, de 40 anos, falou em plenário. Ele era operador de áudio da Banda Gurizada Fandangueira. Hoje servidor público, relatou que o grupo já havia se apresentado na Boate Kiss fazendo uso de artefatos pirotécnicos. Também afirmou que, na noite da tragédia, sem saber o que estava acontecendo, desabilitou o áudio no momento em que viu uma pessoa subindo no palco – talvez com intenção de fazer um alerta sobre o incêndio. “Errei ao bloquear o som”, afirmou, chorando. Naquela noite, Venâncio estava na mesa de som no momento em que foram acionados os fogos de artifício.

Os artefatos ficavam nas laterais do chão do palco. Ele não percebeu o momento em que o fogo começou. “De repente, a banda parou de tocar.” O sonorizador viu os integrantes do grupo com garrafas de água. Disse que desabilitou o som no momento em que viu a pessoa desconhecida subir no palco.

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Venâncio ficou internado no hospital, por exposição à fumaça. De início, evitou buscar atendimento porque a esposa estava grávida de 40 semanas. Ele só foi conhecer a filha, que nasceu em 2 de fevereiro, quando a criança já estava em casa.

Venâncio é abraçado pelo ex-colega de banda e réu, Luciano Bonilha Leão | Fotos: Juliano Verardi/Imprensa TJ-RS

A arquiteta Nivia da Silva Braido também foi ouvida em plenário nessa terça – na condição de informante, não de testemunha, devido a um relacionamento passado com um ex-advogado da Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). Relatou que, em 2012, foi procurada por Kiko para colocar um papel de parede em um dos ambientes da Boate Kiss.

Estava ocorrendo uma obra no local – a transposição do palco da frente para o fundo – e a arquiteta perguntou quem era o responsável técnico pelos trabalhos. O empresário informou que ele próprio estava fazendo, com a ajuda de um profissional. Nivia disse que alertou-o para o risco de ausência de um responsável técnico para a obra.

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Arquiteta Nivia disse que alertou Kiko para a ausência de um responsável técnico

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