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GISELE SEVERO

Ghosting: quando o silêncio também machuca

Foto: Magnific

Vivemos uma época em que nunca foi tão fácil iniciar uma conversa. Basta um toque na tela para conhecer alguém, criar vínculos, trocar mensagens e compartilhar momentos. Paradoxalmente, também nunca foi tão simples desaparecer. Sem explicações, sem despedidas e, muitas vezes, sem qualquer sinal de que algo estava errado. Esse comportamento, conhecido como ghosting, tornou-se cada vez mais comum e revela muito sobre as relações contemporâneas.

O ghosting acontece quando uma pessoa interrompe completamente o contato com outra, ignorando mensagens, ligações e qualquer tentativa de aproximação. É como se deixasse de existir na relação, transformando o outro em alguém que permanece esperando respostas que talvez nunca cheguem.

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Do ponto de vista psicológico, o sofrimento causado pelo ghosting não está apenas na perda da relação, mas na ausência de um encerramento. O cérebro humano busca sentido para aquilo que vive. Quando não encontra respostas, tende a preencher as lacunas com hipóteses, quase sempre negativas. “Será que fiz algo errado?”, “Não fui suficiente?”, “O problema sou eu?”. Essas perguntas podem alimentar sentimentos de rejeição, insegurança e baixa autoestima.

A dor da rejeição, inclusive, ativa áreas cerebrais semelhantes às envolvidas na dor física. Não é exagero dizer que ser ignorado machuca. O silêncio prolongado pode despertar ansiedade, dificuldade para dormir, ruminação de pensamentos e até sintomas depressivos em pessoas mais vulneráveis.

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Entretanto, é importante compreender que quem pratica o ghosting também comunica algo sobre si. Em muitos casos, desaparecer é uma estratégia de evitar conflitos, conversas difíceis ou o desconforto de lidar com as emoções do outro. Embora possa parecer uma saída mais fácil, essa atitude revela, frequentemente, dificuldade de comunicação, imaturidade emocional e pouca habilidade para enfrentar frustrações.

Isso não significa que toda relação precise continuar. Rompimentos fazem parte da vida. O que diferencia uma relação saudável é a capacidade de encerrá-la com respeito. Uma conversa honesta, ainda que breve, costuma ser muito menos dolorosa do que o desaparecimento absoluto.

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As redes sociais também contribuíram para normalizar relações rápidas e descartáveis. Em um ambiente onde tudo parece substituível, algumas pessoas passam a tratar vínculos humanos como se fossem perfis que podem simplesmente ser silenciados ou apagados. No entanto, pessoas não são aplicativos que podem ser fechados sem consequências emocionais.

Para quem sofreu ghosting, o maior desafio é não transformar o silêncio do outro em uma sentença sobre o próprio valor. A ausência de resposta diz mais sobre a forma como alguém escolheu lidar com a situação do que sobre quem ficou esperando. Nem toda rejeição representa falta de valor; muitas vezes, representa apenas falta de maturidade ou de coragem para comunicar uma decisão.

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A psicologia nos convida a olhar para esses episódios com menos culpa e mais autocompaixão. Buscar explicações infinitas ou insistir em respostas que talvez nunca venham prolonga o sofrimento. Em alguns momentos, aceitar que nem todas as histórias terão um final explicado também faz parte do processo de amadurecimento.

Relacionamentos saudáveis são construídos sobre presença, diálogo e responsabilidade afetiva. Desaparecer pode parecer simples para quem vai, mas costuma deixar marcas profundas em quem fica. E talvez esta seja uma das maiores lições dos nossos tempos: comunicar-se com respeito continua sendo um dos gestos mais humanos que existem.

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