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LANÇAMENTO

Livro transforma facas e facões em narradores de aventuras

Foto: Divulgação

O biólogo Rafael Lucchesi Balestrin durante uma de suas saídas de campo

A literatura costuma brindar os leitores com narrativas sob os mais variados pontos de vista. Nesse contexto, obra lançada por um pesquisador gaúcho sem dúvida alguma é inovadora. Tudo porque quem conta as peripécias são… lâminas cortantes e pontiagudas que integram o acervo pessoal desse colecionador. Facas e facões de um biólogo de campo compartilha histórias e crônicas do porto-alegrense Rafael Lucchesi Balestrin e foi editado neste ano pela Escuna, em 165 páginas.

Para quem curte causos e relatos de aventuras em meio à natureza, esse volume revela-se um prato cheio. O autor começa por acertar no tom da narrativa, entre o informal, o coloquial e o didático, tendo em vista que os estudos científicos e as missões a campo, nas diversas regiões gaúchas e em outros estados brasileiros, aproximam o leitor das sucessivas pesquisas ou do atendimento a demandas.

Outra estratégia que se revela convidativa para o leitor está no fato de Balestrin (ou Balé, como é conhecido em seu meio) também compartilhar fotos dos “narradores” de cada parte (no caso, das diversas ferramentas envolvidas naquelas passagens). A que assina o prefácio, por exemplo, é Numesis, uma lâmina de fabricação da renomada marca espanhola Muela. A partir daí, as diferentes peças vão se sucedendo na descrição de peripécias que o biólogo, sozinho ou em equipe, protagoniza.

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O depoimento de uma adaga sem nome afigura-se emblemático. Ela foi encontrada cravada em uma tábua de madeira às margens da Lagoa Cerquinha, no balneário Pinhal, no litoral norte gaúcho, quando Rafael tinha por volta dos sete ou oito anos. Durante o veraneio, o menino ficava por lá ao lado da mãe e dos avós maternos, João e Lila, enquanto o pai, seu José, encontrava-os nos finais de semana. Com essa influência dos casos narrados em família, fortaleceu-se o gosto pelas ciências naturais.

Doutor em Biologia pela PUCRS, Rafael Balestrin passou a se dedicar a estudos e pesquisas sobre fauna em campo, nas mais diversas regiões brasileiras. Envolveu-se em projetos de monitoramento, levantamento e inventariamento ambiental, e especializou-se em herpetologia, o estudo de serpentes e dos répteis. Assim, foram se acumulando as histórias das jornadas em meio à natureza nos diferentes biomas, em longos e exaustivos trabalhos de equipe. São tais aventuras que as lâminas da família narram, salientando ainda a pesca como hobby de Rafael.

Em algumas dessas viagens ele teve a companhia do pai, seu José, e também da esposa Lize, companheira da mesma área de trabalho. Ainda que se trate de um ponto de vista de narração a partir dos utensílios, ou das ferramentas, que o acompanham nessas atividades, sobressaem a importância e a preocupação de um naturalista, de um ambientalista. Nesse sentido, o livro deixa transparecer o grande valor das pesquisas e dos estudos nas ciências naturais.

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Entre os inúmeros relatos, tem-se a descrição de rotinas nas quais o perigo, por lidar diretamente com animais selvagens, serpentes e répteis, é uma constante. Por isso, entende-se que facões, facas, adagas, canivetes são itens de segurança, tanto para a defesa pessoal quanto para resolver situações e imprevistos que possam se apresentar, a qualquer momento.

Amizades que nascem no contato com a natureza

O acervo de imagens do biólogo Rafael Lucchesi Balestrin e de seus familiares e colegas de saídas a campo permite ao leitor de seu livro transportar-se para as inúmeras situações narradas. Ali, apresenta-se um mundo natural rico e variado, tanto em realidade gaúcha quanto no Centro-Oeste e no Norte do Brasil, nas atividades em meio à floresta amazônica. Assim, vão se formando grandes amizades com moradores e auxiliares recrutados na população local, relacionamentos que, como se pode conferir, estendem-se pela vida, em lições de vida e de sobrevivência.

A obra de Balestrin também constitui leitura de interesse para todos os que apreciam a cutelaria, no caso a arte da elaboração, artesanal ou industrial, de facas. O autor evidencia seus conhecimentos e seu fascínio por esses utensílios ao descrever em detalhes os diferentes exemplares da coleção familiar: a cada um deles está associada uma circunstância de sua vida, seja de quando a recebeu ou de quem a recebeu, ou ainda da forma como foi encontrada e incorporada ao acervo.

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Assim, esses dados técnicos ou de descrição de características das lâminas remetem ainda ao colecionismo, à nostalgia ou ao saudosismo. Ao referir marcas, materiais a partir dos quais foram elaborados ou exemplares, tem-se também um elemento cultural a contar uma história ou para preservar memórias. E o livro encerra-se com uma descrição comovente das enchentes de 2024, que também afetaram diretamente o autor.

Peço licença a vocês, mas fui incumbida de apresentar esta obra. No entanto, seguindo os bons costumes, irei me apresentar primeiro. Sou uma das tantas lâminas que o Rafael possui. Sou uma pequena faca de caça de uma renomada marca espanhola de lâminas, a Muela. Fui um presente de seu irmão e sócio, Raphael, adquirida na cidade de Salto del Guairá. Naquele tempo, eles trabalhavam em um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) para o licenciamento de uma ferrovia que cortaria a estado do Paraná, partindo da Serra do Mar até a cidade de Caarapó, no Mato Grosso do Sul. Um baita estudo que se estendia por cerca de 40 dias em campo em cada uma das quatro campanhas que foram realizadas. No entanto, não estou aqui para contar uma das tantas histórias que vivemos nessa aventura, mas sim para apresentar o que está por vir. Ah, já ia me esquecendo: me chamo Numesis, uma referência a espécies de maçarico-de-bico torto (Numenius hudsonicus) que aparece na logomarca da empresa dos Rafaéis, a Fieldwork.

Para ler:

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Facas e facões de um biólogo de campo: histórias e crônicas, de Rafael Lucchesi Balestrin. Porto Alegre: Escuna, 2026. 166 p.

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