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“O sangue chegava a lavar meu braço”, diz vítima de assalto em Cerro Alegre Baixo

Foto: Alencar da Rosa

As fotografias do único filho, Diego Roger Lopes, falecido há 13 anos, já não estão mais em porta-retratos. Os registros impressos, guardados com carinho pelos pais José Manoel Lopes, de 69 anos, e Clarice Maria Lopes, de 60 anos, como uma homenagem ao jovem de 16 anos, que não resistiu a um câncer, foi o que restou dos objetos que estavam sobre a estante do casal. “Vasos, objetos de decoração, os porta-retratos do meu guri que está descansado no Cemitério dos Lopes, que a gente mandou fazer como recordação, tudo que eles passaram por perto, eles quebraram.”

Assim como os objetos, as marcas de um assalto recente também estão gravadas na pele de seu José Manoel Lopes, de 69 anos. Ele foi agredido a socos, chutes e coronhadas, sem oferecer qualquer resistência, por quatro criminosos armados, que invadiram a casa dele na noite de 9 de janeiro, um domingo. “O sangue chegava a lavar meu braço. Na segunda coronhada, meus olhos escureceram de tanta dor e um deles me disse: ‘fica bem quietinho aí que a gente vai te dar um tiro na nuca’”, relembrou seu José, que mora no local e tem, anexo, um armazém e bar, há 25 anos.

Foto: Alencar da Rosa

O assalto que chocou a comunidade de Cerro Alegre Baixo ainda está bem vivo na memória do homem, que contou em detalhes à Gazeta os momentos de terror vividos por ele e a esposa. “Eu tinha fechado a bodega pelas 21h30 e estava na pia da cozinha, fazendo uns bifes para jantar. Minha esposa sentou na mesa e ficou somando os boletos, porque segunda-feira iríamos pagar as contas. De repente, ela me avisou que tinha alguém chamando na porta. Sempre atendi meus vizinhos, não tinha hora. Mesmo de noite, chegava a levantar da cama meia-noite pra atender, então fui lá.”

Lopes se aproximou da entrada e perguntou quem estava ali. “Era uma voz suave. Não disse nome, mas sim que estava perdido, precisando de ajuda, pois tinha um primo que morava perto e não sabia onde era.” Desconfiado, seu José ficou a alguns metros da porta e perguntou qual era o nome do primo. “Ele repetiu a mesma frase, sem trocar uma palavra. Eu disse que não tinha como ajudar. Foi quando eu ouvi o estouro na porta e os vidros vindo em minha direção.”

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Seu José tentou correr, mas foi alcançado pelos assaltantes. “Eles me derrubaram aqui na bodega, me deram uma coronhada, socos, chutes, diziam que queriam dinheiro, arma. Ouvia eles revirando tudo dentro de casa. Pegaram R$ 800,00 no caixa, cerca de R$ 4 mil em cigarros, meu Golzinho, uma televisão. Até ração dos animais que eu tinha aqui levaram.”

Após quebrar os vidros, os assaltantes demoraram alguns segundos para conseguir entrar na casa, após abrir a porta a chutes. Dona Clarice Maria Lopes conseguiu fugir antes de ser notada pelos criminosos. Ela se escondeu deitada embaixo de um pé de limão, a cerca de 200 metros da casa, e tentou ligar para parentes. “Tentei acionar nosso compadre, pedir socorro, mas ele não atendeu. Eu não sabia o que estava acontecendo, só ouvia barulhos de coisas sendo quebradas, eles batendo nele, mas não conseguia ver. Depois que eles foram embora, consegui chegar ali e o José estava lá, puro sangue pelo corpo. Foram momentos de terror”, disse dona Clarice, à Gazeta.

Vítima pensa em largar comércio após o último ataque

Este foi o terceiro assalto que o casal sofre no local. No entanto, diferente dos outros, quando foram levados produtos e dinheiro apenas, neste houve agressões e humilhações por parte da quadrilha. “Esse eu não considero um assalto como os outros, mas sim uma tentativa de homicídio. O que fizeram pra mim eu nunca imaginei que ia passar com a idade que eu estou”, salientou o morador de Cerro Alegre Baixo.

Foto: Alencar da Rosa

Depois do crime, o casal reforçou a segurança da casa, com trancas nas portas. “Eu já tenho problema de coração e faço tratamento há dez anos. Depois disso aí, se agravou. Minha pressão caiu e não consigo mais recuperar. Preciso fazer uma bateria de exames, estou passando mal quase todos os dias, indo na UPA, fazendo soro, saindo do pronto-atendimento meia-noite. Tínhamos só um filho e a gente perdeu ele. Tudo isso vai se agravando. Eu não aguento mais, chegou a hora de parar”, disse o homem, que completa 70 anos no dia 28 de abril e diz não ter mais vontade de seguir com o comércio depois do ataque.

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Segundo o comerciante, até os clientes estão com medo. “Antes, ficavam até meia-noite, às vezes amanheciam jogando carta. Agora, pelas 19h30, pegam um cigarrinho, o traguinho que vão levar pra casa e já se recolhem, de medo. Até agora, quando procuro algo, acabo vendo que roubaram. Eu tinha dois facões guardados. Esses dias, tinha um galho de árvore atrapalhando o local onde os clientes estacionam os carros. Pensei em ir cortar. Quando fui pegar o facão maior, que é melhor e mais bonito, vi que tinham levado também. É triste.”

Ainda chama atenção que outro caso semelhante aconteceu com um familiar dos idosos. No dia 15 de dezembro, o sobrinho de José e Clarice, que mora a 800 metros da casa deles, também sofreu um assalto. Cinco bandidos armados invadiram a residência dele. O fato aconteceu por volta das 20 horas, quando o homem, que é mecânico de motocicletas, chegava de carro no portão frontal da propriedade, que fica próxima a um posto de gasolina.

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Dois criminosos chamaram a família no portão, pedindo água para colocar no radiador do carro. O mecânico entrou e buscou um litro para eles. Nesse momento, um dos assaltantes sorriu para o outro e vieram mais três, rendendo o dono da casa, a mulher e um cliente motoboy, que chegou para buscar uma motocicleta consertada pelo mecânico. Os três foram amarrados em um dos quartos da casa. Foram roubados R$ 15 mil; um veículo Honda Civic prata; uma pistola calibre 9 milímetros, modelo G2C, da marca Taurus; dois celulares modelo iPhone 11; e uma televisão de 32 polegadas.

Draco mantém sigilo sobre a investigação

A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) investiga os casos de assalto em Cerro Alegre Baixo. Os policiais civis mantém sigilo sobre os detalhes. Sabe-se, porém, que um suspeito de estar envolvido em ambos os crimes foi identificado no dia 13 de janeiro, quando os agentes cumpriram um mandado de busca e apreensão, expedido pelo Poder Judiciário, na residência de um homem. O imóvel fica na Rua Professor Léo Winterle, Bairro Santa Vitória.

No local, os investigadores apreenderam três tijolos de maconha, que totalizaram 1,987 quilo; duas toucas ninja, um coldre, duas balanças de precisão e uma fita, possivelmente usada para embalagem de entorpecentes. Não havia ninguém no local no momento do cumprimento do mandado de busca. As investigações prosseguem.

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