Você passa a entender o que é o poder da ficção, dos mitos e narrativas fantásticas, quando vê uma história criada no século VIII a.C. atraindo e fascinando o público do terceiro milênio. A adaptação cinematográfica de A Odisseia, feita por Christopher Nolan, já arrecadou mais de US$ 700 bilhões em bilheteria e continua lotando salas de cinema pelo mundo.
Nada mais representativo do termo “clássico” do que essa capacidade de permanência no imaginário. Mesmo quem nunca leu o poema épico do grego Homero já ouviu falar do Cavalo de Troia, Ulisses, Penélope, Helena, o terrível canto das sereias e monstruosidades como o Ciclope. Isso está na base da cultura ocidental, é inescapável. Narrativa oral, texto escrito ou épico audiovisual, os formatos mudam, mas a história é a mesma.
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O herói Odisseu (ou Ulisses, seu nome romano) tenta voltar a seu lar, na ilha de Ítaca, após participar da Guerra de Troia, que durou dez anos. Sua jornada de volta levará mais uma década, ou seja, serão 20 anos nos quais seus familiares – a esposa Penélope, o filho Telêmaco – não saberão se está vivo ou morto.
Ao lado de um grupo de soldados, Odisseu enfrenta todo tipo de obstáculos e provações na sua viagem: monstros, inimigos cruéis, feitiçaria… Tudo porque ele teria provocado a fúria de Poseidon, o deus grego do mar. Após um naufrágio, chega sozinho à ilha de Ogígia, onde é resgatado e seduzido pela ninfa Calipso. Lá ele ficará por sete anos, mas não vai conseguir esquecer Ítaca e seus entes queridos.
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Com qualidades e defeitos, A Odisseia de Nolan traça um perfil instigante do protagonista. Ao longo do tempo, Odisseu/Ulisses luta para manter vivas as memórias de Ítaca, para jamais esquecer quem ele é. Porém, quando retorna, percebe que ele não é nem pode ser o mesmo homem. Pois traz consigo os horrores que presenciou, sobretudo na Guerra de Troia, da qual ele, vitorioso, não guarda nenhuma glória para se orgulhar. Lembra-se apenas de uma matança indiscriminada que não poupou mulheres e crianças. Essa é a verdadeira abominação, e não monstros e bruxarias.
Esse Odisseu soturno, marcado pelos anos e pelo horror de que foi agente e testemunha, teria algo a dizer sobre esta nossa época de crescente tensão bélica. E bem poderia se conectar ao texto de outro épico, este concebido em solo gaúcho: O tempo e o vento, de Erico Verissimo.
“Mas por que será que o tempo custa tanto a passar quando há guerra?
Decerto não pode andar ligeiro, tropeçando num morto a cada passo.
E por que às vezes o vento geme tanto que parece ferido?
Decerto porque viu muito horror no seu caminho.”
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