Um dos critérios pelos quais alguns dizem que tal povo é primitivo, ou supostamente vive na “infância da civilização”, é a facilidade em acreditar no sobrenatural como explicação para qualquer coisa. Sucesso ou fracasso não seriam questões de responsabilidade pessoal – individual e coletiva – mas da interferência frequente de forças externas, entidades, divindades ou demônios, sorte ou azar, etc.
São “as forças poderosas que estão para além de nós”, como disse certa vez o escritor moçambicano Mia Couto. E a decorrente ideia de que, no fundo, tudo pode se resolver ou complicar em um passe de mágica.
Em um dos textos do livro E se Obama fosse africano?, Couto critica essa postura como um “problema central” para o desenvolvimento de seu país. “Porque esta visão do mundo nos leva a explicar os nossos insucessos pela existência de uma suposta mão escondida. Se falhamos é porque alguém tramou um mau-olhado. Não nos assumimos como cidadãos fazedores e responsáveis. Não produzimos o nosso destino.”
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Mas não se trata, como ele observa, de uma questão apenas da chamada “África profunda”, de comunidades rurais que se guiam por ritos arcaicos, “primitivos”, em contraste com civilizados hábitos contemporâneos. Mesmo nos centros urbanos, em meio ao mais ostensivo desenvolvimento tecnológico, a explicação mágica dos fenômenos segue presente, como se fosse traço básico do humano. A existência de anjos e demônios que interferem e decidem em tudo parece trazer conforto.
As intermináveis teorias sobre complôs também resultam dessa disposição. “Satisfazemo-nos em explicar tudo por razões de alguma conspiração urdida nas nossas costas. É o receio da feitiçaria conduzido para a análise política.” A verdade é o que eu quiser que seja verdadeiro: basta isso como princípio analítico.
Assim, não faltam vendedores de remédios imaginários para graves problemas reais, falsas soluções que só agravam o que já está péssimo. Não há evidências de que o produto funciona, não existe comprovação científica ou prática, mas os vendedores insistem, pois sempre tem alguém disposto a comprar. Exemplos são muitos.
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E aproximam-se as eleições. Antes disso, teremos outra enxurrada de notícias falsas para nivelar as discussões por baixo. Há poucos dias, circulava nas redes mensagem afirmando que, após as 17 horas do dia do pleito, mesários utilizariam a urna eletrônica para votar no lugar de eleitores que não compareceram. Mentira já desmentida pela Justiça Eleitoral.
Enquanto gasta-se energia para lidar com polêmicas artificiais, fica-se inerte para resolver problemas reais. À espera de que, talvez, eles se resolvam magicamente.
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