A cadeia produtiva que movimenta a economia do Vale do Rio Pardo e é grande responsável pelo desempenho do Rio Grande do Sul em exportação tem sido atacada por todos os lados. O setor do tabaco viu, nos últimos meses, um novo golpe em seu planejamento com a taxação dos produtos brasileiros que vão para os Estados Unidos. Foi um baque em duas etapas: primeiro 25%, tendo como argumento medidas econômicas implantadas pelo governo do Brasil; depois, mais 12,5% em função da suposta falta de atuação no combate à importação de produtos feitos com mão de obra forçada.
Não bastasse essa situação, que já pode implicar em cerca de US$ 100 milhões a menos em negociação do tabaco brasileiro com os clientes estadunidenses, o setor deparou-se com iniciativa do Palácio do Planalto que prejudica ainda mais a cadeia produtiva. O valor mínimo da carteira de cigarros passou para R$ 10,50, desde o dia 1º, e o Imposto sobre Produção Industrial (IPI) aumentou de R$ 2,25 para R$ 3,50 por unidade, como forma de compensar o subsídio do combustível de aviões (que teve acréscimo em função dos problemas geopolíticos mundiais).
Diante de tudo isso, resta aos representantes da cadeia produtiva do tabaco ficarem de olho no desempenho do mercado, buscar novas alternativas para a venda e observar atentamente a ampliação da presença do produto africano junto aos principais compradores. O Brasil é o maior exportador há 33 anos e vê esse título sob risco diante das dificuldades impostas pelos governos dos Estados Unidos
e do Brasil.
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Enquanto a exportação sofre com a taxação norte-americana, o mercado interno tem revés com os aumentos definidos por Brasília. Isso impacta no bolso de quem consome o produto e pode incentivar a busca por alternativas mais em conta, como os contrabandeados do Paraguai e de outros países. Hoje, representam 31% do mercado.
Restrições implicam em impulsionamento do mercado ilegal
A cadeia produtiva do tabaco vive momentos de tensão. Trata-se do setor que mais movimenta a economia do Vale do Rio Pardo e é a base do desempenho do agronegócio rio-grandense. Somente no Estado, de acordo com o relatório anual da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), correspondente a 2025, são quase 68 mil famílias produtoras em 205 municípios. Em Santa Catarina e no Paraná, são outras 40.668 e 27.505 propriedades, respectivamente.
Mesmo com toda essa relevância, é alvo de medidas governamentais que resultam no encarecimento do produto nacional, abrem as portas para o contrabando e servem de fomento para o crime organizado. Neste ano, houve dois reveses: um no mercado interno e outro nas negociações com o exterior.
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O primeiro veio dos Estados Unidos, com a taxação de 25%, como forma de retaliação ao modelo econômico nacional, e outros 12,5% em função de levantamento que aponta o Brasil como cliente de locais que utilizam trabalho forçado. O indicador é alto, mesmo que abaixo dos 50% adotados no ano passado, e pode representar perda de US$ 100 milhões ao setor.
Para acrescentar, o governo brasileiro definiu o tabaco como válvula de escape a fim de conseguir recursos para subsidiar outros segmentos, como o da aviação. Assim, aumentou o valor mínimo cobrado pela carteira de cigarros, chegando à maior diferença histórica entre o produto nacional e o contrabandeado. Além disso, ampliou a cobrança do Imposto sobre Produção Industrial (IPI), passando de R$ 2,25 para R$ 3,50 por carteira.
A Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo) aponta que essa medida pode servir como impulsionamento para o mercado ilegal. Em 2019, este chegou a representar 57% do mercado. Os números atuais mostram que 31% do que é adquirido no Brasil provém do contrabando.
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Mantendo-se o percentual, conta o diretor executivo da Abifumo, Edimilson Alves, o poder público brasileiro perde R$ 10 bilhões por ano em impostos. Esse valor se aproxima de R$ 25 bilhões somando-se o que se deixa de arrecadar com os dispositivos eletrônicos de fumar (Defs), que são proibidos no País, mas circulam livremente, comercializados na ilegalidade.

Amprotabaco defende negociação com Estados Unidos
A Associação dos Municípios Produtores de Tabaco (Amprotabaco) tem manifestado preocupação e contestou a tarifa adicional imposta pelos Estados Unidos ao tabaco brasileiro. Em apoio ao ofício encaminhado pelas entidades representativas do setor ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a entidade cobra atuação imediata do governo federal para reverter a medida e incluir o produto na lista de exceções. Para a Amprotabaco, o tarifaço ameaça a competitividade das exportações e pode provocar consequências diretas sobre agricultores, trabalhadores, empresas, comércio, prestadores de serviços e administrações municipais.
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Estimativas apresentadas pelo Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco) e Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo) apontam que o Brasil poderá perder aproximadamente US$ 100 milhões em exportações caso o tabaco permaneça fora da lista de exceções. Em 2025, as vendas do produto ao mercado norte-americano somaram US$ 195,3 milhões, com redução de 23,4% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2026, os embarques alcançaram US$ 88,8 milhões, queda de 31% na comparação com o mesmo período de 2025, cenário que amplia a preocupação dos municípios dependentes da cadeia produtiva.
O presidente da Amprotabaco, Gilson Becker, prefeito de Vera Cruz, destaca que qualquer redução nas exportações repercute diretamente na economia local. “Não estamos tratando apenas de números da balança comercial. Estamos falando da renda de milhares de famílias, da manutenção de empregos, do movimento das empresas e comércio e da capacidade financeira dos municípios para investir em saúde, educação, infraestrutura e atendimento à população. Quando o tabaco perde espaço no mercado internacional, toda a economia regional sente os efeitos”, afirma.
A entidade também alerta para o risco de compradores norte-americanos substituírem o tabaco brasileiro por produtos de países concorrentes, como Zimbábue e Malawi. A perda de contratos pode comprometer a demanda pela produção nacional, especialmente pelo tabaco Burley, e gerar efeitos duradouros sobre uma cadeia estruturada, em grande parte, a partir de pequenas propriedades e da agricultura familiar. A Amprotabaco contesta ainda o tratamento dado ao setor, uma vez que outros produtos brasileiros foram incluídos entre as exceções, enquanto o tabaco continua submetido à sobretaxa.
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Diante do cenário, a Amprotabaco solicita que o governo federal, por meio do MDIC, intensifique as negociações comerciais e diplomáticas com os Estados Unidos. A associação reforça que permanecerá ao lado dos municípios, produtores, trabalhadores e empresas na defesa do setor e na busca por uma solução que preserve a competitividade do produto brasileiro.
“É necessária uma atuação firme, coordenada e urgente. A Amprotabaco estará junto nesta caminhada, ampliando o diálogo institucional e defendendo que os municípios produtores sejam considerados nas decisões que possam afetar a sustentabilidade econômica e social de nossas comunidades”, complementa Becker.

Gilson Becker, presidente da Amprotabaco: “Não estamos tratando apenas de números da balança comercial. Estamos falando da renda de milhares de famílias, da manutenção de empregos, do movimento das empresas e do comércio”
Cadeia produtiva tem conquistado mais espaços para o debate
Na última reunião da Câmara Setorial do Tabaco, foi apontado como positivo o trabalho para a ampliação do diálogo com as instituições e as regiões que não conhecem a realidade do setor produtivo. O presidente Romeu Schneider ressaltou a visita à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) como avanço. “A criação, dentro da CNA, de uma comissão voltada ao acompanhamento e ao apoio da cultura do tabaco abre uma nova possibilidade de inserção do setor nos debates nacionais”, reforçou.
Além da CNA, o setor conquistou a abertura de espaço por meio da Associação dos Municípios Produtores de Tabaco (Amprotabaco), com participação inédita na Expotchê, consolidando a presença institucional da cadeia produtiva do tabaco em um dos mais importantes eventos de promoção da cultura, da economia e das tradições do Sul do Brasil.
Em sua 33ª edição, a feira reuniu milhares de visitantes na capital federal e tem como promotor o governo do Estado do Rio Grande do Sul. Com estande localizado em área central, ao lado do espaço oficial do Estado, a entidade aproveitou a visibilidade do evento para apresentar a relevância econômica e social do setor para os municípios produtores e o desenvolvimento regional.
A participação faz parte de uma estratégia de ampliação do diálogo institucional em âmbito nacional, aproximando a cadeia produtiva do tabaco de lideranças políticas, representantes de governos, organismos internacionais e formadores de opinião. Ao longo dos primeiros dias da programação, o estande recebeu a visita de deputados federais, senadores, integrantes das bancadas parlamentares de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de prefeitos, vereadores e dirigentes de entidades ligadas ao setor produtivo. O espaço serviu como ponto de encontro para apresentar números, debater desafios e reforçar a importância de uma atividade que movimenta mais de 500 municípios brasileiros.
“Levamos a importância do tabaco e de toda a sua cadeia produtiva para a capital federal, mostrando o quanto essa atividade representa para os municípios, para as famílias produtoras e a economia”, resume.
Contratos de longo prazo
O Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco) é outra entidade que mostra preocupação, especialmente com as sobretaxas impostas pelos Estados Unidos ao produto brasileiro. Os números mostram que as negociações vêm diminuindo. Historicamente, o País responde por cerca de 9% dos embarques.
Em 2025, a participação caiu para 6%. No acumulado do ano, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC)/Secex, as exportações brasileiras somaram US$ 195,3 milhões, redução de 23,4% em relação a 2024. A tendência de retração permanece neste ano. No primeiro semestre, o Brasil exportou US$ 88,8 milhões em tabaco para o mercado norte-americano, resultado 31% inferior ao registrado no mesmo período anterior.
Além da redução dos embarques, as medidas tarifárias afetam contratos de longo prazo, o planejamento industrial e a renda de milhares de produtores integrados. “Caso as tarifas sejam mantidas, o tabaco brasileiro tende a perder ainda mais competitividade frente a outros fornecedores, especialmente países africanos, que hoje figuram entre os principais concorrentes do Brasil nesse mercado”, afirma o presidente do SindiTabaco, Valmor Thesing.
Outro fator preocupante é que o mercado norte-americano absorve estilos de tabaco pouco demandados por outros destinos. Assim, uma perda permanente tende a resultar em redução proporcional da produção nacional, com reflexos diretos sobre contratos com produtores integrados, empregos na indústria e geração de divisas para o País.
Nesse cenário, a estimativa do setor é de uma redução de aproximadamente US$ 100 milhões nas exportações brasileiras de tabaco para os Estados Unidos no período 2025/26, reforçando a importância de uma solução que restabeleça condições de competitividade.

Thesing: há perda de competitividade
Incentivo ao crime
As medidas adotadas pelo governo federal, ampliando a tributação do cigarro como forma de subsidiar o combustível de avião, são entendidas como facilitadoras para o crime organizado, que tem nesse produto um dos que mais geram movimentação financeira. Na lista dos contrabandeados, o combustível lidera, seguido por bebidas, cocaína e, em quarto, o cigarro (caso se some com os dispositivos eletrônicos de fumar, o cigarro passa a cocaína).
A preocupação do setor produtivo é que, com o custo maior, os consumidores passem a aderir ao produto que vem de outros países, como o Paraguai, onde a tributação é de 13%, enquanto no Brasil está entre 70% e 90%. O alerta é ampliado, porque o cigarro foi incluído no grupo de produtos do Imposto Seletivo, que ganhou a alcunha de Imposto do Pecado, na Reforma Tributária. Assim, o peso da cobrança governamental pode ser ainda maior.
Um ponto considerado positivo é a abertura da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para audiência pública sobre a possibilidade de novos produtos derivados do tabaco, como o sachê de nicotina. O encontro já teve reunião prévia, com manifestação da Abifumo, e deve ser realizado em até 60 dias.
Exportações

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