Em 3 de maio de 1626, o padre jesuíta Roque Gonzales de Santa Cruz fundava a Redução São Nicolau do Piratini, com índios Guarani, dando início ao projeto missioneiro, por iniciativa da Coroa espanhola, em território do atual Estado do Rio Grande do Sul. Nos anos seguintes, outras 17 semelhantes foram implantadas, e cada vez mais para o Leste, naquele que ficou conhecido como o primeiro ciclo missioneiro, avançando para dentro de um espaço geográfico, o Tape (a região da planície), que também atraía interesses de Portugal.
Quatro séculos depois, as reverberações daquela aventura missioneira seguem muito vivas (e ativas) no presente, em todo o Rio Grande do Sul e, de certo modo, em boa parte da região Sul do continente americano. Para marcar a passagem dessa data, uma série de eventos e publicações fixa memórias e debate o legado.
A esse esforço une-se um livro que acaba de ser lançado pela editora Rio das Letras, de Santa Maria. Organizado pelos pesquisadores Eduardo Baptistela, de Pinhal Grande, que é advogado, e Tiago Luiz Janner, de Agudo, historiador, o volume A presença jesuítica missioneira na Quarta Colônia e Região Central do RS traz 19 artigos, de variadas extensões, que abordam facetas instigantes do passado em dezenas de localidades gaúchas.
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A obra pode ser adquirida tanto através da editora (WhatsApp 55 9 713 3864) quanto com os autores (por exemplo, pelo e-mail [email protected]), ao valor de R$ 30,00, mais despesas de envio. Em grande medida, a publicação oferece um panorama precioso da presença jesuítica missioneira no espaço entre Santa Maria, a Quarta Colônia, região formada por nove municípios (Agudo, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Ivorá, Nova Palma, Pinhal Grande, Restinga Sêca, São João do Polêsine e Silveira Martins), e o Vale do Rio Pardo. Parte desse ambiente já havia sido contemplada pelos autores com a organização de livro anterior, A presença jesuítica missioneira na Quarta Colônia, também com antologia de artigos.
Nesse novo recorte, estendem ou expandem a atenção até o Vale do Rio Pardo. A justificativa é clara: na prática, toda essa ampla área constituía um único e imenso entrecruzamento na movimentação em torno das 18 reduções da fase do Tape, implantadas entre 1626 e 1634. Entre elas estavam três situadas ao longo do Rio Pardo: Jesus Maria, em 1632; São Joaquim, em 1633; e São Cristóvão, em 1634. Eram os núcleos mais avançados a Leste, já além do Rio Jacuí, tido como um marco fronteiriço entre as pretensões espanholas e portuguesas.
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O conflito que mudou o mapa da américa do sul
Do conjunto dos artigos do livro organizado por Eduardo Baptistela e Tiago Luiz Janner sobressai a constatação de que a experiência missioneira, sob iniciativa da Coroa espanhola, mudou para sempre a socioeconomia regional. Mais do que isso, forçou a redefinição das fronteiras.
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Tão logo os portugueses, cujos limites meridionais se estendiam até Laguna, compreenderam a ameaça do avanço espanhol no Tape, colocando em risco a possibilidade de Portugal incorporar tal território, bandeirantes paulistas desceram para o Sul a fim de capturar indígenas (que seriam, supostamente, convertidos em mão de obra nas demais capitanias). Na prática, a preocupação era dizimar reduções, obrigando os jesuítas a recuarem. Em 1636, bandeira liderada por Raposo Tavares atacou e destruiu a pujante Jesus Maria, entre a atual cidade de Candelária e o morro Botucaraí.
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A partir disso, os missioneiros deixaram o Tape e se fixaram no Noroeste, onde ao longo de mais de um século reduções (os Sete Povos das MIssões) floresceram com relativa tranquilidade. Esta só foi abalada com o Tratado de Madri, em 1950; e a derrocada veio com o Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, quando o território missioneiro foi incorporado por Portugal, em troca da Colônia do Sacramento, à margem do Rio da Prata.
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Para ler

Celebrar os 400 anos das Missões Jesuíticas Guarani é, também, assumir postura crítica e responsável diante da história. Este livro não se limita à exaltação de um legado, mas propõe reflexão, diálogo e reconhecimento do protagonismo indígena, elemento central e indispensável para compreender a experiência missioneira. Nesse sentido, a obra se alinha aos debates contemporâneos sobre memória, patrimônio e identidade.
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Ao organizar o volume, Tiago Luiz Janner e Eduardo Baptistela oferecem ao público um trabalho coletivo que valoriza o conhecimento compartilhado e o compromisso com a preservação histórica. Que a publicação contribua para fortalecer o sentimento de pertencimento, incentivar a pesquisa e ampliar o acesso ao conhecimento sobre as Missões, em especial neste ano comemorativo.
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Entrevista – Tiago Luiz Janner, professor e pesquisador

- Gazeta do Sul – O que motivou mais diretamente seu interesse em torno da presença jesuítica missioneira na região Central gaúcha?
O que me despertou o interesse em torno da temática missioneira foi o entendimento de que a história da ocupação do território gaúcho (antigo Tape) está relacionada ao processo das Missões Jesuíticas Guarani. E toda a região central do Rio Grande do Sul teve uma presença e uma circulação missioneira muito forte, tanto no primeiro ciclo como no segundo.
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- Sua família tem relação direta com o território ou com legado associado às reduções? Como é essa vivência pessoal?
Afirmar que minha família não tem relação com o projeto missioneiro é muito relativo. Se você toma chimarrão e come churrasco, então tem relação sim com as missões.
- O que mais se salienta ou o que mais lhe chama atenção, enquanto marcas missioneiras, a partir de suas pesquisas?
O que mais me chama a atenção nas marcas missioneiras é a invisibilidade. A história construída por jesuítas, e, principalmente, com o protagonismo dos Guarani, é fantástica. Os maiores pensadores europeus da época classificaram como o “triunfo da humanidade“ (Voltaire) e “o verdadeiro cristianismo” (Muratóri). E nós pouco ou quase nada conhecemos dessa história.
Falar em presença missioneira na região central do Rio Grande do Sul para muitos é algo inédito. Precisamos conhecer as formas iniciais de ocupação desse território, desde a presença dos povos originários até a chegada dos primeiros europeus, no caso, jesuítas, a mando do reino espanhol e não a ocupação dos portugueses, como sendo os primeiros a chegar aqui, ou até mesmo os imigrantes como desbravadores iniciais.
- Que projeto ainda pretende desenvolver sobre a presença missioneira na região?
Gostaria de dar continuidade às pesquisas e de difundir a história missioneira na região central. Tivemos no Vale do Jacuí quatro reduções do primeiro ciclo.
Obviamente que encontrar o local exato exige um enorme esforço de arqueólogos, pois estamos falando de um território ocupado há 400 anos, e de um projeto que ali teve duração efêmera. Foram construções simples, de barro, madeira, palha, diferente do que conhecemos dos sítios do segundo ciclo missioneiro, como a igreja da São Miguel das Missões.
Mas é importante lembrar que temos no centro do Estado, em Candelária, uma das poucas reduções iniciais cujo local foi identificado, a Redução Jesus Maria José. Aliás, falta maior atenção a esse sítio.
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Entrevista – Eduardo Baptistela, professor e pesquisador

- Gazeta do Sul – O que motivou mais diretamente seu interesse em torno da presença jesuítica missioneira na região Central gaúcha?
O que mais despertou meu interesse foi a busca pela localização da antiga Redução da Natividade, que existiu no território de Pinhal Grande, localidade da qual sou natural. A partir disso, comecei a pesquisar a presença dos jesuítas e dos povos Guarani na região Central do Rio Grande do Sul, buscando compreender melhor essa história muitas vezes esquecida e pouco valorizada.
- Sua família tem relação direta com o território ou com legado associado às reduções? Como é essa vivência pessoal?
Minha relação é principalmente com o município de Pinhal Grande. Cresci convivendo com histórias, tradições e elementos culturais ligados à presença missioneira, o que despertou em mim a curiosidade sobre origens históricas da região e o legado deixado pelos povos Guarani e pelos jesuítas.
- O que mais se salienta ou o que mais lhe chama atenção, enquanto marcas missioneiras, a partir de suas pesquisas?
O que mais me chama atenção é a profunda influência cultural deixada pelos povos Guarani e pelos jesuítas, especialmente na formação da identidade gaúcha. Também considero marcante a resistência indígena, a organização das reduções e a permanência de traços missioneiros na cultura, na religiosidade e na memória popular do povo gaúcho.
- Que projeto ainda pretende desenvolver sobre esse tema?
Pretendo continuar pesquisando a localização e a história da Redução da Natividade, além de transformar parte dessas pesquisas em uma obra literária inspirada em fatos históricos e personagens baseados no período missioneiro.
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Amplitude de temas nos artigos
O livro organizado por Eduardo Baptistela e Tiago Luiz Janner familiariza o leitor com uma série de temas relacionados com a presença jesuítica missioneira na região Central gaúcha. Janner assina o primeiro artigo, no qual menciona o I Fórum Missioneiro da Quarta Colônia, realizado há um ano, em junho de 2025, em Agudo. A partir da movimentação de professores, pesquisadores, especialistas ou mesmo curiosos, diletantes, um grupo de entusiastas em torno do projeto missioneiro desenvolvido no Tape nos anos 1600 passou a interagir.
Baptistela, no segundo texto da antologia, resgata as circunstâncias que envolveram a revolta dos pajés (as lideranças espirituais do povo Guarani) contra os padres jesuítas, vistos como uma ameaça ao poder que os primeiros tinham junto às populações originárias. O conflito cresceu a um ponto que culminou no rapto do padre Cristóvão de Mendonça, considerado o introdutor do gado bovino no ambiente missioneiro, e que estava ligado à Redução Jesus Maria José, e que acabou sendo morto, martirizado, por indígenas liderados pelo pajé Tayubai (supostamente vindo daí o nome da localidade Tabaí, região em que atuava).
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O professor José Roberto de Oliveira, uma das grandes referências contemporâneas em estudos sobre as Missões, avalia no terceiro artigo a importância da celebração e da investigação em torno do legado jesuítico e indígena Guarani por ocasião dos 400 anos desde a fundação da primeira redução. Em texto seguinte, Filipi Pompeu atualiza o leitor acerca da arqueologia das reduções da primeira fase, na região central gaúcha, enquanto Vergilio Frederico Perius enfatiza que as reduções protagonizaram os pioneiros esforços cooperativistas em realidade de América do Sul.
Nos demais artigos, toponímicos, elementos variados e personagens diretamente relacionados com a presença jesuítica dessa primeira fase são detalhados por autores de diferentes especialidades. Moisés Silveira de Menezes, por exemplo, resgata algumas importantes lideranças indígenas desse período, enquanto Carlos Nunes Rodrigues, de Candelária, salienta o papel desempenhado no processo pelo Iequi, o rio que constituía a linha de frente missioneira. Trata-se, claro, do Jacuí, por muito tempo também conhecido como Guaíba, o mais importante curso d’água do Estado, que demarcava a fronteira natural entre as possessões dos reinos de Portugal e da Espanha no Sul da América.
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