Falar gritando o tempo inteiro é uma das coisas mais desagradáveis que existem, existiram e existirão. E esta é uma época de incontinência verbal, em que todo mundo quer bradar suas verdades para ser ouvido, ao vivo ou na internet. Mesmo porque daqui a pouco teremos eleições e é necessário marcar posições, convencer e converter os contrários, sempre com as melhores intenções, pensando em como resolver os problemas do País etc.
Um pouco menos de gritaria histérica talvez ajudasse a pensar melhor em soluções e propostas ponderadas, mas isso não ajuda a trazer engajamento e likes nas redes. O tipo mais popular nesses ambientes é o fanfarrão dono da verdade, que trata as próprias opiniões não como algo provisório ou sujeito a mudanças, mas como artigos de fê, fixos e imutáveis feito pedras. Sua única preocupação é convencer os que ainda não alcançaram o mesmo nível de entendimento.
Também é um ambiente propício para a difusão de mentiras, pois a inverdade precisa ser gritada bem alto para impressionar. Deve ser repetida incessantemente, em uma ladainha maníaca e no último volume, de maneira a entrar à força no cérebro alheio (Se for em texto, letras garrafais). E ainda é o espaço do rage bait, da hostilidade gratuita nas mídias digitais, que certos influenciadores utilizam até como uma espécie da marca registrada.
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E algumas pessoas talvez gritem porque essa é sua forma de dizer ao mundo: “eu existo, olhem para mim”. Cada um com suas manias e obsessões, no fim das contas.
A dúvida que me toma, por vezes, é semelhante à que a jornalista Eliane Brum retratou de modo expressivo numa das crônicas do livro A vida que ninguém vê: “Sempre me surpreendo com a capacidade que muitos têm de preencher o tempo e o espaço com palavras, muitas vezes sem dizer nada. Sempre penso: o que aconteceria se por um momento elas silenciassem? Qual é a ameaça contida no silêncio? Ou qual é o som que não suportamos ouvir para precisar cobri-lo com o ruído ininterrupto de nossa voz?”
O silêncio pode ser, de fato, ameaçador e traiçoeiro, cheio de armadilhas. Pode atrair pensamentos indesejáveis e “sons que não suportamos ouvir”. Nessas horas, convém lutar contra ele, escutar música ou qualquer outra coisa que anule a inquietação, sirva como “ruído branco” reconfortante. Cemitérios são lugares silenciosos por excelência.
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Mas também é no silêncio que nos conectamos com nossas verdades, distinguimos melhor o importante do irrelevante, discernimos o que é precioso ou mera farsa. Em nós mesmos e ao redor. O resto é gritaria.
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