Há lembranças que sobrevivem com doçura, cercadas pelos bons fluidos em que os acontecimentos se sucederam. Muitas, a maioria, se esvaem como a neblina da manhã, ou a fumaça fugaz da palha que queima. São relâmpagos incandescentes, lindos mas infinitamente passageiros. Há algumas, no entanto, que gravam na alma a marca rubra do ferro candente e insistem em permanecer, em sobreviver para sempre.
Antes da construção da rodovia que liga Venâncio Aires a Lajeado, uma das alternativas era uma estrada de chão que liga Venâncio a Mato Leitão, passando por Linha Travessa. Pouco adiante, eu alcançava meu berço natal, a inesquecível e singela Boa Esperança. Poeira e pedras contrastavam com a paisagem rural, semeada de vastos ervais, por vezes bucólica, com alguns animais pastando vagarosamente os dias de sua vida.
Numa tarde de domingo, voltávamos, eu e minha esposa Carmen, da casa dos meus pais. Não tínhamos ainda nossos filhos. Passando pela Linha Travessa, uma mulher nos abordou pedindo carona até Venâncio. Não vimos problemas em acolhê-la. Embarcada, fechou a porta, mas não se mostrava tranquila, alguma coisa a incomodava.
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Olhei no retrovisor e vi um menino desesperado correndo em nossa direção. Perguntei quem era, por que aquele apelo dramático, angustiado e cheio de desespero. Ela implorou para seguir, que era seu filho, que ele ficaria com a avó, ou não sei com quem, que não poderia cuidar dele na semana de trabalho e mais alguns frágeis argumentos, que só mais tarde ratificaram a dor da minha insensibilidade.
Chegando à cidade, deu um endereço para deixá-la. O primeiro não correspondia, pediu para levá-la a outro, que também não se confirmava e, quando indicou mais um, pedi que desembarcasse e localizasse o que procurava. Seguimos nosso caminho, agora carregando essa história verdadeiramente desnecessária e triste.
Nunca mais veria essa mulher, essa mãe, e muito menos o seu menino. Se vivo, deve beirar talvez sessenta anos, talvez tenha tido seus filhos, quem sabe algum neto, talvez tenha alcançado uma vida minimamente digna. De todas as dores que deva ter padecido, com certeza aquele triste domingo estará gravado em seu coração. E ficou no meu. Minha mulher disse que não se lembra. Ainda bem, porque seria mais uma pequena dor a carregar.
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A nossa vida não vem com uma bússola certeira, um mapa infalível, uma rota irretocável. Fernando Pessoa, numa imbatível síntese, cuja origem se atribui ao general romano Pompeu, no século I a.C., nos deixou esses breves versos: navegar é preciso, viver não é preciso. A palavra preciso, aqui, significa o que é exato, certo, vai acontecer. O navegador tem seus instrumentos de alta precisão, o ser humano lida com incertezas, desconfianças, dúvidas. Não sabe o que será do amanhã, não sabe o que encontrará no caminho, não sabe se acolher uma mãe aparentemente desencontrada será uma boa decisão.
Se não escrevesse essa história, quem mais dela saberia? A mulher não vai ler, não vai reviver; o menino deve tê-la absorvido e provavelmente ela durma no silêncio de sua trajetória existencial. Nem todos os episódios que a vida nos apresenta recebem tanta atenção, que mereçam permanecer na memória. Querendo ou não, eles se alojam em nosso coração e fazem parte daquilo que somos e propomos viver. Mesmo aqueles que se apagaram, não desapareceram para sempre. Quem me deu a oportunidade de registrar essa cena, foi a palavra.
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