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BRIEFWECHSEL | CORRESPONDÊNCIA

Outono

Hallo, Armando!

Estamos em sintonia quanto à importância de uma visão de fins para mover o ânimo individual e coletivo. Tua lembrança do conselho do pai, sobre o qual, aliás, jamais tinhas me falado, me surpreendeu: Se não sabes a razão de estares fazendo algo, melhor não fazer. Nossa diferença de idade talvez não tenha permitido que eu pegasse um Ruy Armando tão kantiano assim. Quando eu era criança, ele estava mais para Nietzsche. O problema é que essa lição vale para adultos, mas provavelmente não para crianças em processo de educação e tampouco para os casos em que a razão vem à consciência somente depois da prática. Exigir uma consciência plena das razões antes de qualquer ação pode imobilizar o espírito e privá-lo da experiência do erro e da aventura do desconhecido, temperos da vida. Seja como for, é impressionante como cada época deixa suas marcas. E nós mesmos passamos por muitas mudanças, como as estações.

Um mosaico antigo que uso nas minhas aulas inspira sobre o tempo e os ciclos da vida, fora e dentro de nós. Esse mosaico foi comprado em 1828 por Lud-wig I da Baviera e está abrigado, desde então, na Glyptothek, em Munique. Muita arte grega e romana está na Alemanha. Não são só objetos. Acredito que o espírito antigo do florescimento interior também tenha sido transmitido para aí ao longo dos séculos, impregnando pessoas e instituições

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A notícia recente do fechamento do Goethe Institut em Moscou e a escalada da tensão com os russos me fizeram lembrar da tua carta de algumas semanas, cujo título era Tempos de Paz. Nas entrelinhas do que tens escrito, a tempestade está se formando.

Envio-te uma foto da minha visita à Glyptothek, com a Helena e a Ana, em dezembro de 2012. Muita coisa mudou desde então. A Helena está quase se formando na faculdade e a Ana vai fazer intercâmbio na Alemanha ano que vem. E minha barba já não é mais preta. Mas o mosaico com Gaia e os Frutos do Tempo, as estações, continua lá. Desde 1828. Já sobreviveu a algumas guerras e bombardeios. Em 2012, visitei-o e me vi nele como o Verão. Gostaria de visitá-lo novamente, mas acho que isso só vai acontecer depois de mais um acerto de contas com os russos. Aí já serei Inverno. Com sorte, ainda Outono.

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Liebe Grüße aus Brasilien!

Rafael

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