Rádios ao vivo

Leia a Gazeta Digital

Publicidade

LISSI BENDER

Presença feminina e de alemães na Revolução Farroupilha

Houve um tempo em que a região sulina se separou do Império Brasileiro e se tornou uma república independente, pelo menos por 10 anos – entre 1835 e 1845 – até o tratado de Ponche Verde. No dia 20 de setembro, rememoramos esse evento iniciado há 191 anos. 11 anos antes, em 1824, havia iniciado a imigração alemã em São Leopoldo. Logo na sequência da independência do Brasil, efetivada em 1822.  

De minhas leituras soube que, quando eclodiu a Revolução Farroupilha, existiam em torno de 5 mil imigrantes. Nem bem haviam se instalado, foram envolvidos pelo conflito que duraria dez anos. Em meio a isso, o Império os abandonou à própria sorte e a vinda de novos imigrantes foi suspensa. Durante esse período, imigrantes tiveram de se defender de saques e ataques. Mas muitos participaram dos combates ou prestaram serviços aos farroupilhas. 

Os imigrantes vieram principalmente em famílias. Trouxeram consigo uma língua dissemelhante da existente; uma religião cristã nova; uma cultura diferente. Muitos saíram de terras germânicas por causa de conflitos bélicos e perseguições. Mal chegaram aqui e se viram novamente envoltos em revoluções. O escritor Josué Guimarães se debruça sobre essas questões em seus dois livros A ferro e fogo – I – Tempo de solidão e  II – Tempo de Guerra. Neles o autor humaniza o drama dos colonos e as difíceis situações vivida por eles. 

Publicidade

No segundo livro, o autor se volve para os conflitos farroupilhas e a participação de alemães. Muitos lutaram lado a lado com os gaúchos. Guimarães mostra também os preconceitos de gaúchos para com os imigrantes. A começar pela língua tão diversa que impedia o diálogo, para se conhecerem mutuamente. Na fala de um soldado farrapo: “Isso não é língua de gente”. Esse idioma desconhecido e o modo diferente de viver suscitam receio de que a presença dos imigrantes possa interferir na cultura existente. Uma apreensão compreensível quando alguém se depara com o outro que lhe é totalmente desconhecido. 

Em A Ferro e Fogo – Tempo de Guerra, as personagens também questionam a legitimidade da morte na revolução: “por que, meu Deus, matar?” A indagação se refere aos objetivos a serem alcançados à custa de matanças. Mais ainda, sobre o preço de a vitória ser matar os próprios compatriotas, mesmo que se encontrem em lados opostos (havia alemães nos dois lados dos conflitos) e, por isso, haviam sido transformados em inimigos.

Outro aspecto merecedor de consideração é o papel fundamental das mulheres na Revolução Farroupilha. João-Francisco Rogowski, escritor, jurista e jornalista – autor de uma centena de livros e dezenas deles lançados no exterior – pesquisou e detalhou a participação feminina no capítulo 7 da quarta edição de seu livro Revolução Farroupilha: História, Poder e a República de Piratini.

Publicidade

Em um contato com o renomado escritor Rogowski, falou-me ele a respeito dessa presença: 

“Não tenho a menor dúvida de que, sem as mulheres, a revolução não teria durado tanto quanto durou, nem teria colhido os sucessos reiterados que colheu em tantas batalhas – ainda que não tenha saído plenamente vitoriosa ao final, por falta de recursos econômicos, e não militares”. Nesse sentido, ele também escreveu o livro A Maçonaria e a Revolução Farroupilha. Sobre a revolução, ele conclui que findou com um honroso tratado de paz. 

Que as celebrações em homenagem ao 20 de setembro sejam também um momento para reverenciar todos aqueles que pereceram na Revolução Farroupilha e também a participação feminina: “Verdadeiras sentinelas silenciosas de uma causa que os homens, sozinhos, não teriam sustentado, tecendo, nos bastidores da história, os fios que sustentaram tudo o que se viu à frente”, concluiu, muito a propósito, meu amigo e conceituado escritor João-Francisco Rogowski. 

Publicidade

 

Aviso de cookies

Nós utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdos de seu interesse. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.