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ROMEU NEUMANN

O touro e a ética da máfia

Certo dia nossa mãe resolveu visitar a irmã dela, minha madrinha, dona Apolônia. Pessoa amorosa, com nome único, jamais poderia esquecê-la.
Eu devia ter cinco, no máximo sete anos, e não lembro qual foi a motivação daquele passeio. O certo é que as coisas não aconteceram como deveriam.

Para encurtar o caminho, já que faríamos a pé o trajeto de aproximadamente 7 quilômetros, não seguimos pela estrada. Cedo da manhã, atalhamos por lavouras, nos encharcamos com plantas carregadas de orvalho e chegamos, enfim, a um campo descampado onde, sabíamos, reinava um touro com fama de mau.

Éramos três: a mãe, meu irmão, três anos mais crescido, e eu. Dona Amanda avaliou a situação e concluiu que o touro temido por todos estava distante, na parte mais alta do campo, e talvez nem reparasse em nossa passagem. Ela decidiu – e concordamos – que poderíamos chegar à divisa da propriedade ao lado antes de o touro malvado nos alcançar se nos percebesse.

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Errado. Não sei se foi a roupa da mãe (dizem que touros se incomodam com cores de roupas, sobretudo femininas) mas, quando nos avistou lá do alto, um animal tomado de fúria disparou coxilha abaixo e veio em nosso encalço. “Corram, corram!” gritava nossa mãe.

No desespero, ela, ainda uma mulher jovem, conseguiu saltar sobre o muro. Meu irmão foi no embalo do impulso e também alcançou o outro lado. Só lembro que a mãe estendeu os braços sobre as pedras e me ergueu no exato momento em que o touro se chocou contra o paredão. Desígnios de Deus, com a proteção de Nossa Senhora, o amparo do Santo Anjo da Guarda, ficamos todos bem.

É verdade que permanecemos imóveis por alguns instantes, processando o que acabara de acontecer. Estávamos aliviados, sim – porque naquele momento um muro nos protegia contra a fúria do touro selvagem – mas com o coração saindo pela boca diante do risco que corremos.
Não lembro se ficamos um, dois ou mais dias na casa da madrinha. Sei que na volta para casa resolvemos seguir pela estrada, com muitas voltas a mais, porém não expostos a algum animal enfurecido no meio do campo.

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Os anos se passaram e a vida foi ensinando que seres perigosos e ameaçadores – não animais, mas humanos – não surgem apenas de algum ponto distante do horizonte. Eles podem estar travestidos de motoristas e nos atropelar numa rua preferencial no centro da cidade; podem se empoderar como pedestres que prestam atenção no celular ao ouvido e não no trânsito quando avançam sobre a rua; podem nos golpear com mentiras e promessas antes de teclarmos na urna “incontestável” a cola de uma pressuposta esperança.

Pior que tudo, podem vestir togas e cuspir na nossa cara o seu desprezo à lei, ao respeito, à ética de todos nós, cidadãos atônitos, que ainda tínhamos alguma confiança na Justiça.

Dito assim, acho que preciso me desculpar com os touros. Eles agem por instinto, não se regem por ética de máfia como se invocou há poucos dias no supremo escárnio aos brasileiros.

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