Transcrevo o início da crônica “O jargão”, de Luis Fernando Verissimo, para depois continuar no mesmo tema. Diz assim:
Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.
– Ó Matias, você que entende de mercado de capitais…
– Nem tanto, nem tanto…
(Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)
– Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?
– Bom. Depende do yeld pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-marque – o throwback recai sobre o repasse e não sobre o release, entende?
– Francamente, não. Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz: “É difícil conversar com leigos…”
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A crônica continua no mesmo tom. Só para lembrar: jargão é uma linguagem técnica ou vocabulário específico usado por um grupo profissional, social ou cultural que costuma ser de difícil compreensão para quem é leigo. Meu tema nasceu das leituras cotidianas e das observações ao vivo andando pela cidade e pela vida e me transforma no mesmo leigo de Verissimo. Há uma invasão de termos em praticamente todos os escritos com que nos deparamos. Vamos a alguns exemplos. Para isso, um brainstorm pode nos ajudar bastante.
Criminosos aplicam golpe por spoofing… Essas drogas geram um boost maior, mas o preço é mais alto… A bebida é comercializada em bag in box de 3,5 litros… Não consigo criar essa peça publicitária se não me passarem um briefing… A empresa não possui budget para realizar o empreendimento… Graças a um surpreendente insight, o artista produziu esse quadro magnífico… A explosão de deepfakes afeta o business das empresas locais… Para enfrentar esses problemas, é indispensável mergulhar num deep learning, única forma de sobreviver… Para dar uma ideia do desempenho da cooperativa, estamos enviando um report das atividades do ano passado…
Os eventos contam com workshops, trazem cases de sucesso, mostram o êxito conseguido a partir de uma startup, explicam como atrair clientes através de sales, da tentação do off, ensinam os melhores procedimentos para encantar com cashbacks, isso quando não contratam um CEO (que é a sigla de Chief Executive Officer, ou seja, um diretor-executivo) ou um coach, que é infalível em treinar as mentes dos desqualificados que não sabem alcançar o sucesso. Se alguém mostra interesse em instalar uma pequena empresa, talvez um coworking seja o ideal.
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Quinta-feira é meu deadline para encaminhar esta coluna. Antes de fazer isso, ainda dou um flashback no que escrevi, para ver se não há nenhuma informação incompreensível. Ainda vou providenciar um backup, para garantir que o texto não se perca no caminho das nuvens.
Peço desculpas ao leitor se fiquei meio obscuro em alguma das passagens que escrevi. Na minha opinião, fui bastante claro na exposição. No fundo, quis fazer uma singela homenagem à língua portuguesa. Poderia ter produzido um podcast ou encomendado um windbanner, mas este se perderia no meio das bandeirolas dos candidatos. Por isso, optei pelo método antigo de escrever.
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