Hallo, Armando!
Tenho pensado nos momentos históricos que circundam as decisões pessoais. Qual terá sido o peso do contexto social e político quando o velho Theobald embarcou, em 1853, para o Brasil? A nossa tataravó Anna Raffler, que casou com o Heinrich, filho do Theobald, era filha de um dos fundadores de Santa Cruz, August Raffler. Será que os ventos da primavera política de 1848 influenciaram a partida de Raffler para uma nova vida? Meu palpite é que sim.
Essas especulações ganharam força depois que assisti ao filme Das goldene Ufer (A margem dourada), disponível na Mediathek do canal ZDF, um filme baseado no romance homônimo de Iny Lorentz. Logo nos primeiros minutos, fica clara a principal característica que marca a vida da gente simples em meados do século 19 nos territórios de língua alemã: a injustiça.
A jovem Gisela está limpando o chão do salão quando acidentalmente derrama um pouco de água no vestido da Senhora von Rennitz. A aristocrata, então, espanca a serva e a interroga sobre a falta de gratidão já que sua vida dependia do acolhimento oferecido pela nobre família. Na sequência, a Senhora von Rennitz reúne os criados e comunica que um servo do vizinho, um trabalhador já idoso, teria furtado comida e estava sendo procurado. Quem ousasse ajudá-lo seria punido com a morte. Dissolvida a reunião, Gisela conversa com seu amigo Walther: “Was gibt ihr das Recht? Sie darf das nicht! Es gibt Gerichte!” (“O que lhe dá este direito? Ela não pode fazer isso! Existem tribunais!”) Ao que Walther, secamente, responde: “Die Gerichte sind weit weg!” (“Os tribunais estão muito longe!”)
A trama prossegue e o jovem par, depois de muitas aventuras e dificuldades, consegue embarcar para um novo mundo e deixar para trás o palco carcomido por violência e injustiça.
No capítulo IV do Livro Quarto de A cidade de Deus, Santo Agostinho diz o seguinte: “Desterrada a justiça, que é todo reino, senão grande pirataria? (…) Em tom de brincadeira, porém a sério, certo pirata preso respondeu a Alexandre Magno, que lhe perguntou que lhe parecia o sobressalto em que mantinha o mar. Com arrogante liberdade, respondeu-lhe: “O mesmo que te parece o manteres perturbada a Terra toda, com a diferença apenas de que a mim, por fazê-lo com navio de pequeno porte, me chamam ladrão, e a ti, que o fazes com enorme esquadra, imperador.”
Armando, sei que a vida aí na Alemanha também tem seus desafios e que a guerra está batendo à porta. Mas me parece que por aí ainda há alguma bússola moral. Se o Walther estivesse por aqui, bem que poderia dizer: “Die Gerichte sind vielleicht nicht weit weg, aber die Gerechtigkeit ist ganz bestimmt weit entfernt von den Gerichten!” (“Os tribunais talvez não estejam tão longe, mas a justiça certamente está bem longe deles!”)
Liebe Grüße!
Rafael
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