A violência doméstica deixa marcas que permanecem mesmo após o fim das agressões. Depois da denúncia e do rompimento com o agressor, muitas mulheres precisam reorganizar a vida pessoal, profissional e financeira. Algumas enfrentam um desafio ainda maior: recomeçar em outro endereço, como forma de garantir a própria segurança.
Segundo a psicóloga Indiana Silva, o isolamento da mulher de seus vínculos sociais e familiares já começa por atitudes do agressor no início do relacionamento. “O companheiro vai mostrar esse controle sobre a mulher, impedir que ela siga com esses vínculos.”
Quando retornam ao mercado de trabalho e retomam o convívio social, algumas vítimas podem apresentar ansiedade, sintomas depressivos e estresse pós-traumático. “Num primeiro momento, a impotência. Ela não se reconhece mais como um sujeito independente, vai ter dificuldade de construir relações. Então, restabelecer esse vínculo é um processo.”
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Para outra parcela das vítimas, o desafio profissional é maior. Muitas nunca tiveram uma ocupação remunerada e dependiam financeiramente do agressor. Nesses casos, o receio é ingressar no mercado de trabalho pela primeira vez e conquistar autonomia econômica. É o caso da Roselei Catita Ramos, 32 anos, que conseguiu sair de uma relação abusiva após 10 anos.
Ela havia se afastado da família e de amigos quando deixou Santa Cruz do Sul para viver com o agressor na cidade onde ele trabalhava. Longe de todos, ela viveu a violência em silêncio por medo de não conseguir sustentar os filhos caso saísse da relação. “Apanhei muitas vezes e permaneci calada. Tinha medo de passar fome, ele era o dono da casa, mantinha as contas”. Com a ajuda da avó, conseguiu retornar para o Vale do Rio Pardo e passou a trabalhar com serviços domésticos.
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Anos depois, participou do Projeto Girassóis, uma parceria público-privada idealizada pelo Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM), que reuniu mulheres em situação de violência doméstica para encontros de capacitação profissional. Doze mulheres participaram de oficinas com especialistas de diferentes áreas, que ofereceram acompanhamento individual para o desenvolvimento de seus projetos pessoais e reforçaram a importância do empoderamento feminino.
Conforme Salete Faber, presidente do Conselho, trabalhar a qualificação profissional é uma das principais políticas públicas para a reconstrução da trajetória de vítimas de violência doméstica. Ela ministrou aulas sobre liderança feminina e acompanhou as atividades junto com Estela Rovedder, representante da Corteva Agriscience, empresa apoiadora da iniciativa. “Criamos essa força em comum para que essas mulheres pudessem se fortalecer”, ressalta Salete.
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O espaço também se tornou um ambiente de troca de experiências entre as participantes. Roselei conta que, durante os encontros, percebeu que a sua história não era exceção e entendeu a importância de compartilhá-la para incentivar outras mulheres a romperem relacionamentos abusivos. “Se existissem espaços como esse quando era vítima da violência doméstica, talvez tivesse conseguido sair antes daquela relação.”
O projeto foi além da qualificação profissional e buscou acompanhar a realidade de cada participante, desde aquelas que já estavam inseridas no mercado de trabalho até as que ainda procuravam uma oportunidade. Diante dos resultados, o Conselho já planeja uma segunda edição.
O papel do acolhimento
A Lei Maria da Penha prevê, em seu artigo 9º, que a mulher vítima de violência doméstica possa ser afastada do trabalho por até seis meses, por determinação judicial, sem perder o vínculo empregatício. A reintegração social, porém, pode ser marcada por novos desafios.
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Além dos impactos emocionais apontados pela psicóloga, as vítimas passam a enfrentar uma série de preocupações após a denúncia. Entre elas estão o acompanhamento das medidas legais e dos desdobramentos do caso; a insegurança em relação ao agressor; e as mudanças na situação financeira, especialmente quando há filhos. Nesses casos, a atenção se volta para a saúde mental das crianças e dos adolescentes.
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Por isso, o ambiente de trabalho exerce papel fundamental no processo de reorganização da rotina da vítima. Mais do que um espaço de trabalho, deve ser um local de acolhimento e segurança, para que ela consiga dar continuidade às suas atividades profissionais. “É preciso pensar em uma flexibilidade de horários”, orienta a psicóloga. O apoio humano também é crucial. “Um ambiente onde ela se sinta mais acolhida, com menos pessoas, ou que tenha uma pessoa de referência dentro dessa empresa para dar esse suporte”.
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Da mesma forma, o acolhimento da rede de apoio pode contribuir para que ela rompa o ciclo da violência com mais rapidez. Esse suporte também favorece o resgate da autonomia e da autoestima, além de contribuir para que ela volte a se reconhecer como parte da sociedade.
Também é essencial que a mulher e seus dependentes busquem acompanhamento psicológico, já que a violência pode deixar marcas na saúde mental. Esse cuidado contribui para a recuperação emocional e, no caso dos filhos, pode ajudar a evitar a reprodução de padrões violentos na vida adulta.
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