Eu tenho um irmão que nasceu quando eu tinha um ano e dois meses. Então, até uma certa idade, o que sei foi porque minha mãe me contou. Era muito fraquinho e a mãe quase não tinha leite. Ele chorava de fome e um médico do posto de saúde disse à mãe que completasse a mamada com suco de uva, o que ajudou o bebê a sobreviver. Era verão, fim de dezembro e fazia-se em casa, o suco. Não foi em Santa Cruz que meu irmão nasceu, foi em Iraí, onde a luz se apagava às dez da noite. Deram-lhe nome de Carlos Alberto. Sempre o chamamos de Beto, em casa.
Eu tenho um irmão que, aos seis anos, construiu um carrinho de mão bem tosco e passou a vender mudas de orquídeas, colhidas na mata, para os veranistas que iam tratar seus reumatismos nas águas curativas de Iraí.
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Meu irmão nasceu com o que se chamava “pés chatos” e a verdade é que ao caminhar, tropeçava muito, pois os joelhos também atrapalhavam. Um médico sugeriu botas e palminhas. O sapateiro que fazia as botas dele, colocava tachinhas na própria boca e com a ponta para dentro. A gente ia olhar, esperando a hora em que ele iria engolir aqueles minúsculos pregos.
Meu irmão e eu crescemos quase gêmeos, brigávamos bastante – ele colorado, eu gremista –, eu era estudiosa e ele nem tanto. Ele brigava na rua e eu morria de vergonha. Eu acreditava em tudo e ele era mais curioso para descobrir coisas e aventuras. Mas, quando doentes – sarampo, catapora, coqueluche – éramos os melhores amigos. Podíamos passar os dias na cama dos pais e examinávamos com detalhes as ilustrações dos livros infantis. Depois que aprendi a ler, ele ouvia com muito interesse e, assim, decoramos várias histórias.
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Quando meu irmão avisou que ia cursar Medicina, quase ninguém acreditou. Ele estava no final do ensino médio e estudava em escola pública. Poucos passavam na Universidade Federal, gratuita, e única opção. Pois ele venceu. Durante o curso, para sobreviver, foi motorista de ambulância, carregador de macas e, nos anos finais, atendente de primeiros socorros. Trabalhava cinco noites por semana. Fez plantões em todos os natais. Dias depois da Formatura em Porto Alegre, foi para São Paulo fazer Residência no Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da USP, onde tornou-se professor.
Trabalhou, também, na AACD como voluntário por muitos anos e, depois, como contratado. Especializou-se no tratamento, no seu âmbito, de sequelas em crianças com paralisia cerebral. Meu irmão demorou a casar-se, mas quando conheceu Maria de Lourdes Higuchi, não resistiu. Com ela, teve duas filhas, Carolina e Marília, e três netos: Tiago, João Pedro e Eduardo. Ao mesmo tempo, continuou a cultivar orquídeas, chegando a ter, em seu sítio, cerca de seis mil mudas. Eu não tenho mais esse irmão. Ele partiu. E todos teremos saudade dele e do suave perfume de orquídeas que emanava.
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Acima, uma foto de 1952, na casa dos avós, em Santa Cruz, quando fomos esperar que a cegonha trouxesse nosso irmão Miguel. Obrigada, sempre, por me lerem!
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