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valesca de assis

Querendo ser eu mesma

Quando decidi publicar meu primeiro livro – já distante da primeira adolescência – tive de considerar diversas coisas, sendo uma delas o nome literário que adotaria. Isso, que para a maioria das pessoas não constitui dúvida, foi, para mim, um dilema: sendo mulher de um escritor bastante conhecido e tendo, pelo casamento, incorporado o sobrenome dele, julguei não-ético usar o nome do marido para abrir as minhas portas.
Então, juntamente com o editor, passei a procurar algumas combinações: Maria Brasil, panfletário; Valesca Rech, soava como um espirro (experimentem dizê-lo em voz alta e bem rápido); Maria de Assis, era só vestir um hábito e aderir às Carmelitas descalças; Valesca Brasil, provocava uma cacofonia zoológica. O mais razoável pareceu o que adotei: Valesca de Assis.
Muitos meses depois, com o nome impresso na capa do meu jovem livro, cheguei à Cidade X para dialogar com estudantes do Ensino Médio. Seria minha primeira atividade como escritora e estava nervosíssima. Preparei minha fala, decorei, esqueci, amparei-me num esquema. Os alunos estariam afiados, com leituras prévias; fariam perguntas inteligentes, como de fato aconteceu.
Classificadas por assuntos, capítulos, personagens, as questões viraram o livro pelo avesso, conforme era de prever-se dada a competência dos professores da Cidade X. Já quase ao final, respondidas as perguntas, digamos, mais técnicas, abriu-se espaço para as curiosidades pessoais: de onde vem a inspiração? a que horas escreve? tem filhos? Depois, já na fila de autógrafos, foi crescendo um rumor entre um grupinho de meninas que cercavam um único e bonito rapaz. As mais próximas davam-lhe carinhosos empurrõezinhos, e podia-se ler, nos lábios de todas: vai, vai. Ele então aproximou-se, com a falsa displicência dos belos:
– Escritora, a gente gostaria de fazer uma pergunta.
– Sim, claro. À vontade, amigo.
– Posso, mesmo?
E as garotas: faz, faz.
– Então, lá vai: a gente queria saber se é verdade que a senhora é casada com aquele escritor, o, o, o…
“Diga”, tentei facilitar.
E as meninas soprando:
– Ma-cha-do-de-As-sis.

***

Queridos, esse caso eu já havia contado em meu esgotado Todos os meses, uma espécie de livro-agenda do qual gosto muito, pois foi muito usado na educação de adultos. Obrigada, sempre, por me lerem e enviarem comentários e ideias!

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