Percebo que bastante gente se interessa pelos desafios da escrita. Tentarei trazer mais notícias a respeito. Comecei a aprender a técnica da escrita quase aos quarenta anos, e, mesmo tendo muitas leituras anteriores, não foi fácil confiar em mim: já tinha muitos bloqueios, resultantes dos processos de educação para bem conviver em sociedades mais ou menos rígidas. Como ministrante de oficinas, é o desbloqueio para a escrita o que me move. Quem procura uma Oficina de escrita, mesmo que diga não conseguir escrever nada novo, tem ainda, no seu peito, uma brasa que arde, entre cinzas. O objetivo dos exercícios de desbloqueio é justamente soprar, dar vida a essa brasa e avivar muitas mais.
Vou sugerir um exercício de que gosto muito – o de finais de sonhos. Peço aos alunos que registrem seus sonhos, em especial os recorrentes, se tiverem. Num certo dia, solicito, a quem quiser, contar um de seus sonhos ou pesadelos. A todos, peço que anotem a última frase que o colega disser. Depois de algum tempo, obteremos uma lista como a que segue:
Mas me contenho e fico em silêncio.
Junto com a água, vão-se os dentes.
A gente falava uma língua que eu não sabia qual era.
Eu acordei sorrindo.
E ela chorava uma lágrima de sangue.
Que bom que tem cavalos!
Olha só, você precisa ver isto!
No alto da escada, havia uma caixinha.
Então, vamos fazer duas viagens.
Não ouvi a resposta porque o despertador tocou.
Será que eu vou voar?
Então, vamos esquecer todo o conteúdo dos sonhos e fixarmo-nos nas frases que anotamos. E escolhamos uma delas para criar um conto. Ela pode ser o início ou o final do texto. O meu pesadelo recorrente, em certa época, era o de subir escadas e jamais conseguir descer de volta: uma tragédia, porque deveres e ações me esperavam lá embaixo. Até que, certa noite, bem no alto da escada que subia, avistei uma caixinha embrulhada para presente. Não cheguei a ver o que continha, pois acordei. Nunca mais tive aquele pesadelo. Para o exercício, não interessa o sonho em si. É a partir da ideia da caixinha no topo da escada que vamos pensar uma história que deve ter verdade, subtexto, ritmo, impacto, final surpreendente e necessário, porque a escrita, como toda obra humana, envolve muita técnica. Mas isso vem aos poucos. Sugiro que tentem!
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Queridos, acreditem em Octavio Paz:
“Em lábios de crianças, loucos, sábios, apaixonados ou solitários, brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada… Feitas de matéria inflamável, as palavras se incendeiam assim que as roçam a imaginação ou a fantasia.”
Grata, sempre, por me lerem.
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