Na coluna de duas semanas atrás, tratamos da necessidade de ser elaborada uma novíssima síntese. Ilustrativamente trouxemos à reflexão o esforço do pesquisador francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) que expressou a evolução em contínua cosmogênese. Por sua vez, outro estudioso, o gaúcho Balduíno Rambo (1905-1961), buscou sem cessar a proposição de uma síntese, que encontra na sua obra A fisionomia do Rio Grande do Sul (Ed. Selbach, 1942) uma primorosa apresentação integrativa das diferentes regiões fisiográficas de nosso Estado.
A palavra “fisionomia” no título do livro nos fez procurar, em 2016, o arqueólogo Pedro Ignácio Schmitz, pois este fora considerado por Rambo seu sucessor intelectual. O arqueólogo nos respondeu que o termo “fisionomia” demonstrava a convicção de Rambo acerca da pluralidade na unidade sob a visão holística de quem pretendia uma síntese num alinhamento proximal ao demonstrado por Chardin. Todavia, se na obra de 1942 Rambo se preocupou em descrever, de forma didática e científica, as regiões fisionômicas sulinas, em seus diários confessa seus receios, frustrações, carências, aflições, empenhos e inquietudes; sentimentos que nos aproximam, pois através deles nos percebemos irmanados na estratigrafia em fluxo interativo que nos é comum.
Os Diários de Rambo foram organizados em três volumes (Ed. Unisinos, 1994, 1998 e 1999) pelo historiador santa-cruzense padre Arthur Rabuske (1924-2010), que é o patrono da cadeira nº 4 da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul, presidida por Marli Silveira, cujo titular é o colega Benno Bernardo Kist.
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Se desafiador o processo formulativo de uma síntese, o mesmo clama por ousadias, inclusive a de relativizar, na orientação evolutiva usual de sua época, o lugar do humano, pois Rambo considerava que relacionar tudo àquele seria demasiado, até porque a natureza em suas diferentes manifestações tem valor em si mesma.
Assim, não é de estranhar o slogan que nos congregou contra a extinção da Fundação Zoobotânica (FZB) do Rio Grande do Sul em 2015/16. Até hoje não saem de nossa memória as manifestações promovidas em frente à Fundação, que a partir de 1972 congregou o Jardim Botânico, o Parque Zoológico e o Museu de Ciências Naturais. Museu que encontrou em Balduíno Rambo seu primeiro presidente, isso de 1955 a 1961. Dizia a mensagem: “A FZB não tem preço, tem valor!”. Quanta atualidade nessa manifestação!
Introduzimos, de forma extremamente sucinta, o pensamento de dois apaixonados pela natureza: Chardin e Rambo. Que suas meritórias buscas por sínteses, na inquieta e incessante identificação de um sentido orientador do processo em continuada cosmogênese, nos inspirem propositivamente, pois seus ideais seguem convocatórios, mesmo que careçamos da suficiente clareza mobilizadora e nos sintamos angustiados, até porque tudo o que foi desenvolvido até agora se pronuncia insuficiente, ainda que meritório.
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