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Valesca de Assis

Ponto de partilha

Entre as virtudes mais necessárias ao bom escritor estão a perseverança e a inconformidade. Perseverança para escrever, ler, reler, deixar o texto descansar; tirar o texto da gaveta e ler, reler, mudar, voltar a ler. Inconformidade, para não se contentar com a primeira versão de um escrito. O texto é uma construção em que cada tijolo tem seu espaço justo e perfeito. Se usarmos quaisquer tijolos, nossa obra restará torta e não ficará de pé. O leitor não pode ser submetido a tropeços, exceto os do enredo ficcional. A história deve fluir sem excessos, sem adjetivos mal postos, sem verbos inadequados. Ao escrevermos uma história, estamos nos propondo a uma delicada e complexa peça de joalheria.

Tendo em vista tais critérios, não estimulo meus alunos de Oficina Literária a publicarem antologias de final de curso. Explico-lhes as razões: o que parece bom, de início – publicar! – não deixa de ser um erro no tempo. Quem está pronto para qualquer ofício com um ou dois semestres de estudos? Muito vão se dar conta disso mais tarde e se arrependerão.

Em toda a minha história de oficineira, apenas duas antologias foram publicadas: Ponto de partilha I e II, ambas organizadas entre alunos de diversas turmas. Eles mesmos pediram, escolheram textos, julgamos juntos e juntos aprovamos o que estava maduro para ser colhido.

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Pensando nisso, lembrei da orelha que fiz para um deles:

Em Mântua, no século I a.C., a mulher grávida sonha com um pé de louro. Julgando que o sonho contivesse mensagem cifrada, foi consultar o oráculo. “Vais dar à luz um poeta que terá muita glória e reconhecimento.” A mulher chorou de orgulho. O oráculo, no entanto, advertiu: “Assim que ele tiver idade, envie-o a Roma para que aprenda poesia com os grandes poetas.” Era Virgílio, o bebê esperado. Nasceu, cresceu, estudou com os melhores, e suas obras atravessaram milênios.”

É com a lenda sobre o nascimento de Virgílio que pretendo apresentar-lhes o Ponto de partilha II (*): pessoas talentosas e carregando um sonho – às vezes por muito tempo – procuraram um ambiente em que pudessem expressar-se. Na linguagem de nossos dias, buscaram uma oficina literária. Um oráculo interior já lhes havia assegurado a realização do sonho, mas não antes de dominarem a necessária técnica. E fizeram-no com dedicação – praticaram, leram, experimentaram cursos. Foram aos limites, na sua busca. Então, com todo esse trabalho, o que era pedra bruta mostrou-se Literatura: a perseguição incansável à boa técnica revelara-lhes o próprio talento e o prazer superlativo de escrever.”

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Gosto muito desse exemplo. Ninguém nasce pronto.

(*) Ponto de Partilha II – Antologia organizada por Valesca de Assis e Ronaldo Lucena. Porto Alegre:, Literalis, 2012,. 136 p.

Obrigada por lerem.

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