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FORA DE PAUTA

Fazer jornalismo também é saber esperar

Foto: Divulgação

Todas as histórias me marcam. Todas.

O caso de Carlos Henrique, porém, encontrou em mim um lugar ainda mais delicado.

Meu primeiro Fora de Pauta foi publicado no fim de semana em que o menino morreu. Coincidentemente, meu segundo Fora de Pauta é agora.

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Sou mãe. Também cheguei a Santa Cruz do Sul vinda de outra cidade, com duas crianças. Uma delas adoeceu e precisou de atendimento no Cemai. Também teve a questão do cadastro do Cartão SUS. Minha filha também não foi atendida. Na semana em que Carlos Henrique morreu, eu havia acabado de fazer a alteração.

Quando ouvi aquela mãe falar, algumas coisas me eram familiares. Eu entendi palavras que não precisavam sequer ser ditas. Entendi o medo diante de um filho doente. Entendi a angústia.

Mas também precisei reconhecer que compreender uma parte daquela experiência não significava conhecer a dor daquela família.

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Eu sou branca. Minha trajetória, meu lugar social e as experiências que carrego são diferentes. A semelhança entre algumas circunstâncias das nossas vidas não me coloca no lugar daquela mãe.

Reconhecer esse limite também é parte do trabalho de um jornalista. Eu, como repórter, tinha uma responsabilidade muito específica: apurar.

E essa apuração me levou a acompanhar de perto diferentes etapas do caso. Certa manhã, enquanto levava minhas filhas para a escola, me deparei com viaturas do Instituto-Geral de Perícias no cemitério, justamente em frente à escola. Eu estava a caminho de mais um dia comum quando aquela cena me lembrou que, para aquela família e para quem investigava a morte de Carlos Henrique, nada havia de comum naquela manhã. Foi assim que acompanhei também a exumação do corpo do menino.

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São momentos que dificilmente aparecem na matéria final. O leitor vê o resultado da apuração, mas não necessariamente vê o repórter chegando a cada uma dessas etapas, acompanhando procedimentos, fazendo perguntas, esperando respostas e tentando compreender o que cada novo elemento pode significar.

Não passei um dia sequer sem pensar em Carlos Henrique. Mas pensar nele não me dava respostas. Sentir indignação não me autorizava a fazer acusações. Minha identificação com aquela mãe não poderia substituir documentos, depoimentos, perícias ou o trabalho da investigação.

Essa é uma das partes do jornalismo que quase ninguém vê.

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Antes de uma matéria existir, há muito trabalho que não aparece. Há perguntas feitas mais de uma vez, informações que precisam ser confirmadas, versões que precisam ser confrontadas e, muitas vezes, coisas que ainda não podem ser publicadas. Há dúvidas. Há espera.

E houve, neste caso, uma espera especialmente difícil.

Eu poderia ter transformado a dor daquela família em sensacionalismo. Poderia ter escrito aquilo que eu mesma queria descobrir antes que a investigação tivesse condições de responder. Não fiz isso.

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Não porque o caso não me afetasse. Mas justamente porque me afetava.

Acredito que uma apuração jornalística responsável não pode substituir aquilo que precisa ser demonstrado. O jornalista pode questionar, acompanhar, cobrar respostas e informar. Mas não pode fabricar certezas.

Agora, com o inquérito concluído e a médica indiciada por homicídio culposo, existe um resultado a ser noticiado. Os fatos apurados passam a ocupar o espaço que antes era das perguntas. O resultado é o indiciamento e não uma condenação ou definição do que aconteceu. E o caso está longe do fim.

Para mim, Carlos Henrique continuará sendo muito mais do que o resultado de um inquérito ou uma matéria publicada no jornal.

Ele é uma criança que morreu. É um filho. É um irmão. É uma família que terá de carregar essa ausência.

E eu sei que, quando a edição chegar às mãos do leitor, quase tudo aquilo que aconteceu antes da publicação estará invisível. O trabalho do repórter é transformar meses de perguntas, apuração e espera em informação compreensível para quem lê.

O que não deveria desaparecer, porém, é a humanidade.

Eu não quero ser uma jornalista que não sente. Quero ser uma jornalista que sente e, ainda assim, consegue separar sentimento de fato.

Que consegue se aproximar o suficiente para compreender e se afastar o suficiente para não inventar aquilo que não sabe. Ou aumentar em busca de cliques.

Porque, no fim, nenhuma dessas histórias é apenas uma história.

São vidas.

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