Basta rolar por poucos minutos a página inicial do Instagram. Ou de qualquer outra rede social, como preferir. Em meio ao bombardeio constante de informações, é frequente se deparar com conteúdos ditos de “autoajuda”, ornados com expressões como “sua melhor versão”. Todo mundo tem uma receita de bolo. Uma fórmula mágica inquestionável, inatacável, infalível.
Primeiro, alguém (pode ser um nutricionista, pode não ser) vai te dizer exatamente quais alimentos deves comer para perder os “quilinhos” a mais. Alguns posts adiante, alguém (pode ser um educador físico, pode não ser) vai te dizer exatamente quais exercícios deves praticar para ganhar os músculos que tanto almeja.
Role a tela um pouco mais. Alguém (pode ser um psicólogo ou neurocientista, pode não ser) vai te dizer exatamente quais hobbies deve adotar para ficar mais inteligente. Parece perfeito, não é? Até seria, se todos tivessem o mesmo forno, a mesma batedeira e os mesmos ingredientes. Não existe receita de bolo universal.
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E o mesmo vale para tudo isso que listei acima. Cria-se um código de conduta velado, determinando exatamente cada passo que devemos adotar. Como se todos partissem do mesmo lugar, tivessem as mesmas condições e buscassem o mesmo objetivo. Mas sabemos que não é bem assim. Primeiro, nem o nosso descanso, o momento em que não devemos nada a ninguém, é poupado de se tornar objeto de performance.
Que tem jeito “certo” e “errado”. E nos comparamos com o que aparece na rede, onde algo que pra ti pode ser extraordinário é apenas a “rotina” de alguém. Porém, se o seu tempo ocioso vira uma constante provação de que está o aproveitando da melhor maneira, já se perdeu totalmente o seu objetivo principal: descansar.
Segundo, há infinitas condicionais para se chegar a esses objetivos. Tempo, dinheiro, acesso. Eu, por exemplo, sinto vontade (ou necessidade) de muitas coisas. Mas já estou ocupado demais matando meus leões, conciliando a rotina. Isso que reconheço falar de um lugar privilegiado. Se pensarmos nas grandes cidades, é comum passar horas no transporte diariamente para praticar suas atividades laborais.
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Em São Paulo, por exemplo, quase 30% das pessoas ocupadas passam mais de uma hora em deslocamento ao local de trabalho, conforme o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E como fica o tempo para as outras mil e uma coisas?
Volto a dizer: não existe receita de bolo universal. Enquanto nos apegarmos a conteúdo de autoajuda e acreditar em soluções que não considerem nosso contexto, nosso objetivo e nossas condições, seguiremos reféns de culpa e comparação. Acrescento que nada disso substitui o trabalho e acompanhamento de profissionais sérios – até porque muitos desses “gurus” jamais passaram perto de um diploma na vida.
E a ti, que segue se comparando à rotina perfeita das telas: está tudo bem em fazer só o que consegue, por menos que pareça ser. Pode até mesmo ser um bolo de caneca, daqueles bem preguiçosos, que se faz em poucos minutos no micro-ondas. Só não deixe os leões te matarem.
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