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GISELE SEVERO

Casamento deveria ser mais frescobol e menos tênis

Foto: Divulgação

Foto: Pexels

Há uma diferença aparentemente simples entre uma partida de tênis e uma de frescobol, mas talvez ela diga muito sobre a maneira como construímos nossos relacionamentos. No tênis, o objetivo é fazer com que o adversário não consiga devolver a bola. Eu ganho o ponto quando você erra, quando não alcança a jogada ou quando consigo colocá-lo em uma posição difícil. No frescobol, a lógica é outra: para que o jogo continue, eu preciso jogar de uma maneira que permita que você devolva a bola. Se você erra, não existe comemoração do outro lado. A bola cai e o jogo dos dois termina. Talvez exista justamente nessa diferença uma bela metáfora para pensarmos o casamento.

Muitos casais começam suas histórias jogando frescobol e, sem perceber, começam a jogar tênis. No início, existe uma preocupação genuína em fazer a relação funcionar. Um observa o outro, aprende seus movimentos, conhece seus limites e procura encontrar um ritmo comum. Porém, diante das frustrações e dos conflitos inevitáveis da convivência, algumas relações mudam de lógica. Em vez de duas pessoas tentando resolver um problema, passam a existir duas pessoas tentando provar quem está certo. E quando uma discussão se transforma em uma disputa para descobrir quem vence e quem perde, talvez seja importante perguntar: se eu vencer essa discussão, o que exatamente nós dois ganhamos?

No tênis, posso direcionar a bola para o lugar onde sei que meu adversário terá dificuldade de alcançá-la. Nos relacionamentos também conhecemos os lugares mais sensíveis de quem está ao nosso lado. Depois de anos de intimidade, sabemos das inseguranças, dos medos, das histórias e feridas emocionais do outro. Durante uma discussão, podemos lançar verdadeiras “bolas indefensáveis”: utilizar uma fragilidade que nos foi confidenciada, trazer um erro antigo para vencer uma discussão atual, ironizar, humilhar ou usar o silêncio como punição. Talvez alguém consiga ganhar o argumento, mas o preço pode ser alto, porque aos poucos se perde algo essencial para qualquer relacionamento saudável: a segurança emocional de poder ser vulnerável diante de quem amamos.

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No frescobol existe outra lógica: eu não jogo contra você, eu jogo com você. Isso não significa ausência de conflitos, concordar com tudo ou aceitar comportamentos inadequados em nome de uma falsa harmonia. Relações saudáveis também possuem divergências, limites e conversas difíceis. A diferença está na maneira como o casal atravessa esses momentos. Na psicologia dos relacionamentos, sabemos que a qualidade de um vínculo não depende da inexistência de conflitos, mas da maneira como eles são administrados. Casais emocionalmente maduros conseguem compreender que o problema precisa ser enfrentado pelos dois, sem transformar necessariamente um deles no problema. A pergunta deixa de ser “quem está certo?” e passa a ser “como podemos resolver isso juntos?”.

Talvez o casamento não devesse se parecer com uma quadra dividida por uma rede, com duas pessoas em lados opostos tentando marcar pontos uma sobre a outra. Talvez devesse se parecer mais com duas pessoas diante do mar, aprendendo diariamente a ajustar seus movimentos, respeitar seus limites e reencontrar o ritmo quando a bola cai. Porque ela cairá muitas vezes ao longo de uma vida a dois. A maturidade não está em nunca deixá-la cair, mas em ter disposição para pegá-la novamente e recomeçar. Afinal, no amor, ninguém deveria precisar perder para que o outro vença. A verdadeira vitória acontece quando os dois conseguem manter a relação no ar.

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